quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Cartas a quem deseja "seguir" a poesia. Edna Domenica Merola

Nas cartas ficcionais, a seguir, emissores e remetentes (Sonhadora, Semeadora, Responsável pelas Inscrições, Professora, Aluna Beatriz, Futura Aluna) dialogam sobre oficinas literárias e a 'prática' da criatividade como combate ao isolamento existencial para maiores de 50 anos. Explica-se a escolha das anfitriãs das Oficinas de Criação Literária do N.E.T.I. 2016.2: a Poesia e a Dramaturgia.

Campo dos Sonhos, 28 de junho de 2016.
Cara Semeadora,

Disseram-lhe que tenho indagado a respeito do seu plantio? Como é o seu roseiral?
A Sonhadora. 

Campo das Roseiras, 01 de julho de 2016.
Cara Sonhadora,

Escrevo para lhe contar que meu roseiral é plenamente maduro. Suas roseiras possuem rosas robustas brancas, cor-de-rosa, vermelhas, amarelas. Há algumas roseiras solitárias... Duas ou três. Há algumas roseiras agrupadas que conversam entre si para trocar ideias. Trocam fórmulas sobre o autocuidado e sobre como perfumar todo o jardim.
É diversificado esse meu roseiral... Por que será? 
Sei que herdei mágicas sementes na hora em que entendi oportuna essa semeadura. O plantio não é mágico: pura labuta persistente. 
Mágica é a mobilidade do conjunto de roseiras cujas raízes têm a tônica da profundidade. Mágico é o roseiral que carinhosamente chamo de 'meu'.
Com um abraço, da Semeadora.

Porto Informativo, 12 de julho de 2016.
Cara Responsável pelas inscrições para as Oficinas Literárias,

Meu sonho é escrever pelo menos um poema nesta minha vida que tem sido muito boa... Mas que pode melhorar ainda mais.
Creio que poetas têm um dom especial. Mas pergunto-lhe, mesmo assim: é possível para alguém que nunca escreveu “versinhos” (nem na escola primária) aprender a escrevê-los, num semestre, depois de idosa?
Aguardo sua resposta para decidir se irei ou não me inscrever na Oficina de Criação Literária.
Atenciosamente, a Sonhadora.


Porto Informativo, 13 de julho de 2015.
Olá, Sonhadora,

Passei sua pergunta para a professora e ela me disse que a aprendizagem varia de pessoa para pessoa, mas que eu deveria encorajá-la a participar, desde que você tivesse hábito de ler com frequência. Constata-se que quanto maior a escolaridade mais rápida é a adaptação às tais oficinas. O curso é para quem cursou no mínimo o Ensino Médio. Não será necessário comprovar se o grau escolar foi obtido ou não. Como você sonha em aprender, precisamos mostrar-lhe qual será o grau de desafio, para que você não se desiluda.
Atenciosamente, a Responsável.


Porto Informativo, 14 de julho de 2016.
Cara Professora,

É verdade que os poetas vivem num mundo à parte?
Fernando Pessoa escreveu na primeira estrofe do poema Autopsicografia: 

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Se os poetas fingem a dor, será que fingem também o amor que declaram às suas musas? 
Fernando Pessoa. 1888-1935.
Beatriz.


Porto Informativo, 15 de julho de 2016.
Cara aluna Beatriz,

“O poeta é um fingidor” já que não relata fatos autobiográficos, mas representa a dor humana e a transcreve em forma de poesia. O leitor, por sua vez acreditará que o poeta simplesmente imaginou “A dor que deveras sente”.
Fernando Pessoa explicou que os poetas se despersonalizam como numa representação teatral:
O ponto central da minha personalidade como artista é que sou um poeta dramático; tenho continuamente, em tudo quanto escrevo, a exaltação íntima do poeta e a despersonalização do dramaturgo. Voo outro ‒ eis tudo. (PESSOA, 1935).
Beatriz: musa de Dante
Os nomes das musas não têm a ver com a vida íntima dos poetas. Por exemplo, as musas dos poetas do arcadismo (século XVIII) foram copiadas dos poetas da Antiguidade Clássica (século VIII A.C. ao séc. V D.C.). 
Há uma tradição de copiar nomes de musas, até hoje. Consegue lembrar quantas personagens Beatriz houve nas novelas televisivas? Sabia que Beatriz era o nome da musa de Dante Alighieri? (1265-1321).
Huizinga. 1872-1945. 
Por ser um dos gêneros literários, a poesia é uma atividade arquetípica, cuja tônica é o jogo. 
Huizinga afirmou:
Por detrás de toda expressão abstrata se oculta uma metáfora, e toda metáfora é jogo de palavras. Assim, ao dar expressão à vida, o homem cria um outro mundo, um mundo poético, ao lado do da natureza. As grandes atividades arquetípicas da sociedade humana são, desde início, inteiramente marcadas pelo jogo. (HUIZINGA, 2000, p 7).

Portanto, a palavra é abstração; é representação daquilo que é imaginado e expresso pela linguagem metafórica (poética) ou pelo jogo de/com 'palavras'. Esse jogo peculiar está implícito na poesia e no teatro
O poeta cria o "eu lírico", inventa a musa, idealiza o amor, imagina um estado poético e o expressa num poema para o deleite da leitora.
Atenciosamente, a Professora

Porto Informativo, 18 de julho de 2016.
Professora das Oficinas de Criação Literária,

Poderia antecipar algo sobre as Oficinas do próximo semestre?
Abraço, da Futura Aluna.


Porto Informativo, 19 de julho de 2016.
Cara Futura Aluna,

Anteciparei algo sobre a metodologia adotada e seus fundamentos; os objetivos e proposta de curso para o semestre vindouro. 
Considerando que a palavra é abstração → metáfora → jogo (teatro) → poesia, a metodologia adotada nas Oficinas Literárias do NETI é lúdica. 
O uso do jogo didático aqui referido é uma interpretação do psicodrama sob um enfoque histórico-cultural. 
J. L. Moreno (1899- 1974)

Moreno identificou três fases no desenvolvimento de um papel: a primeira que é a tomada de um papel; a segunda que é a fase em que se joga o papel e a terceira que ocorre quando se cria sobre o papel. Quanto mais desenvolvido for o papel, maior será a espontaneidade que ele apresenta, ou seja, maior a capacidade de dar respostas novas a situações novas ou respostas adequadas a situações velhas. 
O fator espontaneidade é passível de desenvolvimento na interação com os colegas de aprendizagem, dadas as circunstâncias estabelecidas pelos contextos, instrumentos e etapas do jogo dramático que configuram a atividade como vivência de teor ético e estético. O jogo ou desempenho de papéis depende naturalmente de interações potenciais de um grupo. 
O empobrecimento das relações em pessoas idosas pode estar associado ao isolamento que ocorre de diferentes formas
Irvin D. Yalom
I. Yalon. Washington, 1931

"O isolamento interpessoal refere-se ao abismo entre o sujeito e os outros. É vivenciado como solidão e pode ser melhorado por uma capacidade maior de criar e manter a intimidade com terceiros.” (YALOM, 2009, p. 37‒38).
Mais grave do que a solidão é o isolamento existencial: “refere-se a um abismo intransponível não apenas entre o eu e qualquer outro ser, mas também entre o eu e o mundo.” (YALOM, 2009, p. 38). 
Uma das evidências do isolamento existencial seria a baixa frequência de comportamentos criativos. Portanto, tratar do isolamento significa cuidar da criatividade.
Moreno (1978) considera que o ato criador está no processo da criação artística ou científica e não em seu produto que passa a ser conserva-cultural. Com o desenvolvimento da tecnologia, os cidadãos comuns substituíram "a onipresença no espaço pelo poder no espaço", e a onipresença temporal pelo poder no tempo, decorrente de "tudo aquilo que pertence à cultura e cuja repetição é desprovida de espontaneidade". No entanto, "a conserva-cultural só é de ajuda quando o indivíduo vive num mundo relativamente estável". O fortalecimento das possibilidades pessoais conta com o exercício da "espontaneidade".
Elisabeth Sene-Costa
E. Sene-Costa. Psicodramatista bras.
As respostas existenciais espontâneas facultam em relação aos papéis, segundo categorias apontadas por Sene Costa (1998): "tomar, aceitar, assumir ou adotar, desempenhar, jogar ou representar, criar ou reformular, desenvolver, recuperar, escolher, conquistar ou ganhar, ampliar".
Nas Oficinas de Criação Literária 2016.2, o papel de "eu lírico" será estimulado com o intuito de criar o papel de poeta. Já o teatro será a forma de desempenhar, representar e ampliar esse papel. 
Atenciosamente, a Professora.


REFERÊNCIAS

MEROLA, Edna Domenica. Pedagogia do Psicodrama: a ação do grupo no desenvolvimento de papéis da pessoa idosa. Monografia de conclusão do Curso de Especialização em Atenção à Saúde da Pessoa Idosa. Orientadora: Maria Celina da Silva Crema. UFSC, CCS, N.E.T.I., 2015, 46 f.
____________ Cartas em Posfácio. In Diálogos da Maturidade. Postmix, 2016.

MORENO, J.L. Psicodrama. 2 ed, São Paulo: Cultrix, 1978.

SENE COSTA, E. Gerontodrama: a velhice em cena. (Estudos clínicos e psicodramáticos sobre o envelhecimento e a terceira idade.). São Paulo: Ágora. 1998.

YALOM, I. D. Vou Chamar a Polícia: e outras histórias de terapia e literatura. Rio de Janeiro: Agir, 2009.


ADENDOCronograma Temático das Oficinas 2016.2


Data
Tema
18/8
Apresentação dos participantes. Caracterização da turma em agrupamentos por idade. Escrever o que uma das cantigas de roda dum rol dado faz lembrar. Apresentação grupal de uma cantiga.
Dança em espelho como aquecimento para a escrita coletiva de material “poético” http://www.last.fm/fr/music/Petros+Tabouris/_/Sikkinis
25/8
Continuação da caracterização da turma. Redondilha Menor. Redondilha Maior.
1/9
Soneto “Que dramalhão um intrigante ousado (Artur de Azevedo).
8/9
Pastiche: Roteiro de um dramalhão (adaptado para o século XXI). 
15/9
Rimas. Ritmo. Métrica.
22/9
Linguagem Poética e as Sensações: Tato
29/9
Linguagem Poética e as Sensações: Olfato.
6/10
Linguagem Poética e as Sensações: Olfato.
13/10
Linguagem Poética e as Sensações: Visão, Cores.
20/10
Linguagem Poética e as Sensações: Audição.
27/10
Cores, Sons e Poesia.
03/10
Linguagem Poética e Imaginário (arquétipos).
10/10
Linguagem Poética e o Elemento Água.
17/10
Linguagem Poética e o Elemento Fogo.
24/10
Linguagem Poética e o Elemento Terra.
01/12
Avaliação.


Textos produzidos por Cleide Pimentel, nas Oficinas de Criação Literária do N.E.T.I./UFSC


Cleide reside em Florianópolis há 51 anos. Frequentou escola durante 23 anos. Ingressou no NETI em 2016. 

Antes do NETI, o último curso havia sido em 2004.
Aprecia Frank Sinatra, especialmente as músicas:
New York https://www.letras.mus.br/frank-sinatra/36413/traducao.html

My Way. https://www.vagalume.com.br/frank-sinatra/new-york-new-york-traducao.html

Os livros dos quais gosta Imperador de todos os males e O Pequeno Príncipe (EXUPÉRY, Antoine). Segue trecho do último que exemplifica uma narrativa em terceira pessoa:
O pequeno príncipe atravessou o deserto e encontrou apenas uma flor. Uma flor de três pétalas, uma florzinha insignificante...
‒ Bom dia - disse o príncipe.
‒ Bom dia - disse a flor.
‒ Onde estão os homens? - Perguntou ele educadamente.
A flor, um dia, vira passar uma caravana:
‒ Os homens? Eu creio que existem seis ou sete. Vi-os faz muito tempo. Mas não se pode nunca saber onde se encontram. O vento os leva. Eles não têm raízes. Eles não gostam das raízes.
‒ Adeus - disse o principezinho.
‒ Adeus - disse a flor. 

Referências:

23/6/2016. Criação conjunta: Adalva, Cleide, Juçara, Marta e Dulci.
Proposta: Redigir cartas com as personagens Maria (MEROLA, 2011) e Capitu (ASSIS, 1899).

Florianópolis, 20 de Maio de 2016.
Saudações, Amiga Capitu,

Desejo que esta lhe encontre bem e com saúde.
Amiga, tenho pensado muito em você nestes últimos dias. Minha luta tem sido grande nesta crise que atualmente estamos passando aqui no país.
Tenho saído todos os dias para conquistar meus direitos. Como você sabe continuo na venda de produtos que me deem uma renda e assim vou adquirindo o que sonho e desejo.
Sendo assim sou grata a Deus pelo dom que recebi de ter uma bela voz; e, conforme o meu público, recito lindas mensagens.
Nestes últimos dias tenho pensado em você, o que me levou a lhe escrever.
Gostaria de saber como você está? E o que tem feito para sobreviver neste mundo com tantas desigualdades?
O Ezequiel já consegue contribuir com algum ganho, para o sustento de vocês? Sei que ele está quase concluindo seus estudos e se for a vontade de vocês de retornarem ao Brasil, contem com meu amparo, inclusive podendo morar na minha residência.
Poderemos usar a nossa criatividade e desenvolver juntas um trabalho para o nosso sustento.
No aguardo da sua resposta,
Grande abraço,
                     Maria.


Genebra, 23 de Junho de 2016.
Querida Maria,

Que emoção que senti ao receber sua carta. Como é bom saber da sua amizade e carinho por mim.
Ezequiel estará concluindo seu curso no final deste ano.
Ele pensa em retornar ao Brasil e ficar mais próximo do pai, pois nunca entendeu o afastamento dele.
Eu agora estou um pouco melhor, mas vivi tempos difíceis. Minha paixão e meu amor por Bentinho foram intensos e maravilhosos. Minha tristeza é grande em saber que tudo acabou por ciúme, desconfiança e possessividade. Temos conseguido sobreviver com dignidade, mas sempre com dificuldades.
Estou agora pronta para voltar ao Brasil.
Agradeço, amiga, pelo carinho; e aceito seu convite generoso.
Beijos,
         Capitu.


TAREFAS DAS OFICINAS REALIZADAS POR CLEIDE

Florianópolis, 16 de junho de 2016.
Prova em dupla: Cleide e Marta.

No início do curso Oficina de Criação Literária lemos um texto no qual foi feita a distinção entre Dionísio e Apolo. Para os gregos há duas forças diferentes na arte e na vida. O apolíneo é a individualização, símbolo de limite, harmonia, beleza, equilíbrio e medida. É a arte que procura cobrir o mundo com uma cortina estética, forma perfeita e bela. Quando se vê uma pessoa bonita diz: “Parece um Apolo”. O dionisíaco é a afirmação triunfal da realidade e suas contingências. Através da embriaguez, os limites, as medidas caem possibilitando a volúpia, festa com a carnavalização que propicia a catarse coletiva. Dionísio, deus do vinho, da música e da dança. 
Estudamos o coro grego que na peça de teatro é como um personagem coletivo serve para indagações, para provocar reflexão, confere movimento. 
O texto de que mais gostei foi a tarefa da primeira carta sobre: ”Você acredita que as pessoas necessitam buscar novas formas de organização para viver melhor?”. Resultou numa reflexão sobre qualidade de vida e formas de organização que não são pensadas com propriedade para o nosso dia a dia. 
Os nomes das colegas das Oficinas: Marta, Dalva, Edna Gaspodini, Dulci, Jussara, Antônia, Suzana, Marlene, Arlete, Carmem, Vera, Vânio, Terezinha e Mara Lúcia. (Esta última encontrei outro dia e não podia comparecer porque ia viajar). 
Meu par no desenho das mãos foi a Marta. Escolhemos os ditados: “ Quem não tem cabeça, tem perna. ” e  “Manda quem pode, obedece que tem juízo. ”


Florianópolis, 12 de junho de 2016.
PEÇA O ENTREGADOR DE CARTAS

ATO ÚNICO
(Cenário: redondezas da cidade)
(Personagens: Pintalgato, Sino, Coro, Carro)


PINTALGATO
(Observando os personagens)
‒ Quem vocês pensam que são?

SINO
‒ Ando pra lá e pra cá, faço um barulho danado, não sei se incomodo ou se agrado.

CORO
‒ Quem não tem cabeça tem perna.

CARRO
‒ Levo este Sino todos os dias pra lá e pra cá. Digo para calar-se, pois muitos ainda dormem e que eu tenho uma função uma tarefa muito especial.

CORO
‒ Manda quem pode, obedece quem tem juízo.

PINTALGATO

‒ A convivência de vocês como Sino e como Carro têm proporcionado muitas experiências e também sabedoria.

CORO
‒ Quem não tem cabeça tem perna.

CARRO
‒ Gosto de levar você comigo, desde que não palpite muito. Sinto prazer em entregar as cartas e ver os olhos brilhantes das pessoas ao receberem notícias das pessoas que amam.

CORO
‒ Manda quem pode, obedece quem tem juízo.


PINTALGATO
‒ Vocês estão juntos nessa trajetória, aprendam a conviver com as suas ideias e suas atividades. O importante é explorar o potencial de cada um.

CORO

‒ Manda quem pode, obedece quem tem juízo.



Florianópolis, 6 de junho de 2016.
O ENTREGADOR DE CARTAS

PINTALGATO
‒ O que você está fazendo dentro desse carro?

SINO
‒ Este carro é a minha casa, durmo todas as noites aqui.

CARRO
‒ Eu saio todos os dias para entregar cartas, conheço todas as ruas e também os arredores da cidade, mas à noite eu volto.

SINO
‒ Eu sou alegre e barulhento, acordo todo mundo bem cedo, não adianta se esconder, percorro muitas distâncias.

CARRO
‒ Minha casa está às suas ordens, saio para o trabalho, mas volto para o merecido descanso.


Florianópolis, 27 de maio de 2016.
Carminha,

Escrevi uma história da qual você e a Sandra são personagens centrais. Dei-lhe o nome de "Mensagens de papel". Leia antes de que eu a publique no blog NETIATIVO. Se tiver qualquer lapso, me avise.
"Depois de passar muitos anos estudando fora, Carminha volta ao lugar em que viveu com seus avós e primos durante a infância.
Encontra Seu Manoel e pergunta: "Quem morou nesta casa? O senhor lembra?"
Seu Manoel, sem enxergar direito e um pouco surdo, olhou para ela bastante desconfiado e com uma voz rouca, falou: "O que foi? O que você disse?"
Ela ficou triste ao ver aquele homem, que outrora fora um dos trabalhadores de seu avô, em roupas surradas e com aspecto de pessoa abandonada, sem condições de responder às suas curiosidades.
Ele contava muitas histórias para ela e seus primos que ficavam ao redor do fogão à lenha nas noites frias de inverno. Cada um tinha suas preferências. As meninas gostavam de saber como viviam os índios. Se eram violentos e se comiam criancinhas. Os meninos queriam saber sobre os animais selvagens que viviam nas redondezas e o que fazer para matá-los.
Nessa época, a caça aos animais era permitida. Toda família daquela região, tinha espingarda para matar pássaros, como perdiz, perdigão e pombinhas. Para animais perigosos como gato do mato, tipo uma onça, que chegavam a devorar cachorros, ou outros bichos menores, o revólver era a melhor opção pela rapidez com que podiam usar.
Marlene era a prima mais velha de Carminha. Ela veio morar com os avós juntamente com Carlinhos e Eduardo, porque a mãe falecera. Carminha estava com coqueluche e, como precisava de cuidados especiais, veio também morar com os avós.
As duas viviam brincando e brigando sem violência. Às vezes ajudavam a avó nos afazeres da casa, mas, o melhor era brincar com suas bonecas, a maioria feitas de pano por uma vizinha.
No natal Carminha ganhou uma boneca de louça, que tinha olhos brilhantes, roupa colorida, pele rosada, parecia um bebê. Mas ao disputarem a posse da boneca, quebraram-na em pedaços.
Passados alguns anos, o pai de Marlene casou-se com a tia Gracinha que fez questão de levar todos para morarem juntos.
Era estranho para Carminha viver só com os avós, parece que o tempo demorava a passar e tinha saudade das brincadeiras com seus primos.
Gostavam de se esconder nos caixotes usados para guardar o milho, feijão e outros produtos extraídos do campo. Eram fundos o suficiente para encobrir os garotos. Carminha às vezes não conseguia abri-los, levando susto dos primos, mas a diversão era a melhor coisa.
Ela continuou morando com seus avós pelos quais tinha verdadeira paixão. Depois de alguns anos, voltou para a casa dos pais passando a ter uma convivência diferente com a sua família. Tinha como propósito estudar, aprendera a ler com a avó e tomou gosto pelas histórias que conhecera nos lindos livros coloridos.
Os irmãos de Carminha, Sandra e Paulo, estudaram, casaram e foram morar em outras cidades.
Sandra casou-se com Jaiminho. Formam uma bela família com seus três filhos. Ele tem que ausentar-se com frequência, pois como piloto de avião vive viajando. Mesmo assim, demonstra muita compreensão com os problemas que surgem na sua ausência.
Sempre que viajava para países do oriente trazia muitas novidades como, brinquedos, lapiseiras diferentes, sapatos de plástico, chapéus e até produtos desconhecidos aqui no Brasil. Era uma festa para todos.
Sandra sempre cuidou da família e da casa, pois na ausência do marido fazia às vezes de pai e de mãe. Papel que os seus filhos passaram a reclamar, criticar e depois com o tempo a entender.
Contou outro dia, que certa vez foram comprar o material para a escola dos filhos. Eduardo, hoje engenheiro, saiu da livraria com um apontador sem pagar.
Ela perguntou: sabe que quem leva algo sem pagar pode ser preso?
Dudu arregalou os olhos e disse: eu vou preso? Então quero devolver isso agora.
Foi uma lição inesquecível, para todos.
Segundo Carminha, Sandra sempre trabalhou e conseguiu dar conta das suas atividades como mãe e profissional.
Outro dia Carminha perguntou à Sandra se poderia responder o seguinte questionamento: “Se ela acredita que as pessoas necessitam buscar novas formas de organização para viver melhor?”.
Sandra, apesar dos afazeres que tem no seu dia a dia, respondeu que a vida atualmente parece mais complexa e exigente, levando muitas pessoas ao estresse. Entretanto, a organização e a consciência do que temos que fazer é o segredo para se viver melhor.
Há muitos anos atrás, quando estudava, em Porto Alegre, assistiu a uma palestra que a deixou muito motivada a transpor situações trágicas ou desagradáveis, sugerida por um psiquiatra judeu. Ele perdeu a família nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Estava para ser conduzido à câmara de gás, quando teve consciência de que poderiam fazer o que quisessem com seu corpo, mas não com sua mente, sua imaginação e sua capacidade de transcender a realidade. Esse psiquiatra conseguiu escapar do campo de extermínio, tornou-se professor e trabalhou numa clínica para mulheres com síndrome suicida.
Para Sandra, o ensinamento deste professor foi fundamental, pois ao conhecer sua história, mudou muita coisa em sua vida."
Bem, Carminha, agora já respondi aos seus questionamentos sobre as histórias das quais não esquecerei jamais. Gostaria de saber: "já está acostumada à nova casa?".
Mudanças fazem muito bem pra gente. Em todos os sentidos.
Espero que você tenha colocado o relógio de parede que era do seu vovô num lugar de destaque.
Abraço, da Cleide Pimentel.


Curitiba, 28 de maio de 2016.
Querida irmã,

Tudo bem com você e sua família? Como está a programação para a viagem? Continuam com a ideia de visitar outras cidades brasileiras? É uma ótima oportunidade, pois nesta época do ano a região norte ou nordeste tem um clima maravilhoso. Se quiserem poderemos viajar juntos.
Lembra-se daquele casal de amigos que depois de aposentados foram morar lá?
A Ester e o Jorge? Outro dia estiveram nos visitando e insistiram para que fôssemos passar uns dias juntos.
Eles construíram uma casa confortável num terreno que fica à beira mar. Tem um quiosque entre a praia e a casa, muito agradável para a gente comer uns petiscos e tomar uns aperitivos, tem até rede para descansar.
Os filhos e os netos os visitam quase sempre no final do ano. Procuram passar o Natal juntos.
Em julho, a casa fica praticamente vazia. Tem um casal que cuida da casa na ausência deles, e ajudam nos afazeres e limpeza da casa quando têm visitas.
Bom, a sugestão está dada. Se decidirem, nos comuniquem para providenciarmos as passagens.
Beijos a todos, com saudades,
                                       Sandra.


Florianópolis, 15 de maio de 2016.
Querida irmã Sandra,

Como está? Tudo bem com vocês? E seus filhos? Tudo certo com eles?
Seu marido Jaiminho continua viajando? Deve ter visitado muitos lugares interessantes. Lembro-me quando viajava para países do oriente e trazia muitas novidades. Presentes para todos, brinquedos, lapiseiras diferentes, sapatos de plástico, desconhecidos no comércio daqui, chapéus diferentes que cobriam o rosto de forma abrangente para proteção do sol.
Os produtos proibidos não faziam parte de suas compras. Hoje com uma nova lei brasileiros e estrangeiros já podem trazer na bagagem queijos, doce de leite, salame, pescado, mas precisam estar acondicionados em sua embalagem original e com rótulo, identificando sua a sua origem.
Jaiminho sempre mostrou ser uma pessoa com personalidade forte, corajoso com senso de justiça e respeitado por seus colegas de trabalho. Com os filhos demonstrava muito amor e paciência, dava atenção aos três, que chegavam a dormir com as histórias maravilhosas que ele contava sempre.
Sandra, acredito que o seu papel na formação dos seus filhos também foi fundamental, pois você ministrava aulas, organizava a casa e procurava educa-los dentro de princípios éticos. As festas de aniversário eram maravilhosas: com muita comida, muitos doces e enfeites encantadores.
Hoje eles estão formados, cada um dentro do seu interesse e o mérito em grande parte é seu, pois mesmo sozinha conseguiu levar essa turma adiante.
Lembro ainda daquele fato que você contou sobre o Dudu. Vocês foram fazer compras do material para a escola e seu filho saiu da livraria com um apontador no bolso sem pagar. Quando você percebeu, explicou que esse comportamento não era correto, e imediatamente voltaram para a devolução do produto e ele teve que pedir desculpas à vendedora e prometer que não cometeria isso novamente.
São pequenos ensinamentos como esse que fazem a diferença e permite que princípios de honestidade sejam alicerçados dentro das famílias, e tornem adultos mais coerentes.
Às vezes questiono como você conseguiu dar conta de todos os afazeres, sem a presença no dia a dia, do Jaiminho.
Sandra, gostaria que você colaborasse comigo respondendo a seguinte questão que faz parte de um trabalho para o grupo de teatro do qual participo: “Você acredita que as pessoas necessitam buscar novas formas de organização para viver melhor?”.
Será muito interessante conhecer suas ideias a respeito, pois como professora e mãe creio que tem muitas coisas para contar. Estava esquecendo, mas solicito a resposta dentro de uma semana no máximo para poder terminar o meu trabalho.
Beijos, com saudades, Carminha.


Florianópolis, 17 de maio de 2016.
Querida Irmã Carminha,

Fiquei muito feliz pela sua carta. Há algum tempo não nos correspondíamos desta forma, pois os celulares tomaram conta da nossa vida.
Gostaria de agradecer por lembrar-se dos acontecimentos que fazem parte de uma época muito saudosa.
Para falar a verdade, você me pegou de surpresa sobre o questionamento que fez. “Se eu acredito que as pessoas necessitam buscar novas formas de organização para viver melhor?”
Acredito que sim, pois a nossa vida parece cada dia mais complexa, exigente, levando muitas pessoas ao estresse. Mesmo com o auxílio da tecnologia, os nossos esforços para administrar família, trabalho, casa, obrigações sociais, às vezes são insuficientes para alcançar os objetivos desejados.
Certa vez tive que fazer um trabalho sobre um psiquiatra judeu, chamado Viktor Frankl. Perdeu a família nos campos de concentração durante a Segunda Guerra Mundial. Estava para ser conduzido à câmara de gás, mas tomou consciência de que poderiam fazer o que quisessem com seu corpo, mas não com sua imaginação, sua liberdade mental, capaz de transcender a realidade presente.
Este senhor conseguiu escapar do campo de extermínio. Sua determinação de mostrar a capacidade que o ser humano tem de pensar e mudar não só a sua vida, mas a de outros seres foi a mola propulsora para a sua existência. Tornou-se professor e trabalhou em uma clínica para mulheres com síndrome suicida. Visitou vários países, inclusive o Brasil, contando a sua maravilhosa experiência para jovens estudantes e profissionais.
As pessoas quando entendem que como estão vivendo não as satisfaz, precisam encontrar novas formas para viver melhor.
Aqui em casa, Jaiminho e eu procuramos manter certo equilíbrio em relação aos nossos compromissos e afazeres.
Os filhos, cada um com suas famílias e suas atividades profissionais. Quando precisam de uma opinião ou mesmo duma ajuda com as crianças, estamos disponíveis.
Uma vez por ano viajamos para reencontrar os amigos, saindo da rotina. Sempre falo que viajar é a sobremesa que a vida nos oferece e os amigos a maior riqueza.
Espero encontrar vocês nas Festas das Famílias.
                                                                           Beijos.


Florianópolis, 10 de maio de 2016.
Querida prima Marise,

Passei hoje pela rua em que morávamos quando crianças e lembrei muito de você.
Fomos morar com o Nono e a Vó, numa casa de madeira. Aquela região era praticamente sítio, com estrada de chão e ficava distante do centro da cidade.
Você e seus irmãos, Carlinhos e Eduardo, foram morar lá porque seu pai ficara viúvo, e eu porque estava com coqueluche e minha mãe não conseguia cuidar dos cinco filhos ao mesmo tempo.
No inverno, ficávamos ao redor do fogão à lenha para nos aquecer e ouvir histórias.
Os índios da região desciam a serra no inverno para fugir do frio e às vezes ficavam pela mata observando as famílias nas suas atividades diárias. O Nono deixava alguns alimentos nas proximidades para que eles pudessem levar. Eram pacíficos. Não podíamos sair sozinhos sem a companhia de um adulto, para longe da casa. Agora entendo as exigências da Vó.
Nossa brincadeira preferida era o esconde-esconde. Entrávamos nos caixotes utilizados para guardar o milho, feijão e outros produtos extraídos do campo. Eram fundos para nossa estatura, com uma tampa que ao entrar fechava em cima de nossas cabeças. Muito divertido.
Certa vez, creio que foi no Natal. Como eu era a menor de todos, ganhei uma boneca linda. Tinha olhos brilhantes que fechavam quando ficava deitada, o vestido era colorido e a pele rosada, parecia um bebê.
A boneca era de louça, lembra?
Um dia, não sei como, ao disputarmos a posse da boneca, deixamos cair e a boneca quebrou-se em muitos pedaços. Chorei muito, fiquei sem consolo. Ganhar outra igual era uma possibilidade remota, apesar da promessa da Vó. Depois disso ganhei outros brinquedos, inclusive outra boneca, mas nenhuma igual àquela.
São lembranças que sempre farão parte da minha vida e dos meus sonhos.
Gostaria de convidar você para um dia desses passarmos uma tarde lá, tomar café na lojinha que existe e que vende produtos produzidos na região, e relembrar como foi gostosa aquela época com nossos avós.
Beijos, com carinho,
                            Cleide.


Florianópolis, 02 de maio de 2016.
A Escola

Na adolescência passava as férias quase sempre, no sítio dos meus tios.
Gostava das atividades da fazenda: um estilo de vida simples e rústico em todos os aspectos.
Ajudava a plantar, tirar leite das vacas, vacinar o gado, enfim parecia que fora criada para viver naquele ambiente.
Decidi que queria estudar agronomia.
Saí novamente para as férias e quando cheguei a casa, minha mãe falou: "você vai fazer o curso normal para ser professora, agronomia é profissão de homem". Reclamei sem resultado.
Fui estudar pela manhã e à tarde consegui uma vaga para dar aulas em uma escola como professora substituta.
Lembro-me da escola, das salas de aula, dos professores e dos alunos. Deram-me um plano de ensino a ser seguido.
Ensinar crianças de primeira série a aprender a ler e escrever é muito gratificante. A gente vê o aprendizado passo a passo, a escrita vai se desenvolvendo com as letras, frases, palavras e o  entendimento das coisas e do mundo vai se sedimentando.
A sala ficava junto ao gabinete da diretora, com uma porta de acesso no lado oposto do quadro negro.
Por qualquer barulho entrava sem pedir licença e gritava diante dos alunos.
Um dos alunos era muito ativo, Arildo era seu nome.
Certa vez, ele estava virado para a carteira do colega de trás, e eu escrevendo no quadro, quando a diretora abriu a porta, e para surpresa minha, começou a bater no garoto com uma raiva incontrolável. Todos ficaram paralisados. Sem saber o que fazer, disse que ela não poderia bater, pois não era filho dela. Com o dedo em riste, disse: “se eles não sabem se comportar, bater é uma forma de educar".
Voltei para casa, desanimada, desabafei com meus pais e chorei muito pensando em como enfrentar os dias seguintes.
Sentia-me confusa, pois não entendia o uso da violência com crianças indefesas e também do desrespeito comigo enquanto professora.


Florianópolis, 16 de abril de 2016.
Caros Calouros UFSC/ 2016,

Vou contar um pouco da minha história.
Nasci na Serra Catarinense, onde cresci e estudei, saindo de lá com 17 anos.
Meu pai era funcionário público, mudou-se para Florianópolis e trouxe minha mãe e meus irmãos menores. Cheguei em dezembro, alguns meses depois, época de muito calor e sentia muito sono. Tive que me adaptar ao clima, aos costumes, aos nossos vizinhos, enfim, à maneira de viver aqui.
Morávamos em Coqueiros, onde eu e meus irmãos íamos à praia diariamente. A areia era quente de queimar os pés, quando descalços. Às vezes víamos peixes, siris, camarão que os pescadores traziam. Também estrelas do mar e ouriço. Tudo era novidade, pois estávamos acostumados com as espécies de água doce.
Não sabia nadar, mas aos poucos fui entrando na água que era salgada e quente, muito gostosa. Aprendi com nossos amigos que primeiro era preciso aprender a boiar para depois nadar e assim podia ir mais longe no mar.
À noite conversávamos na praia, com os amigos, e meu irmão tocava violão, ali ficávamos até quase meia noite, hora estabelecida para voltar para casa, sem muito barulho.
Em março do ano seguinte, iniciei os estudos no segundo ano do normal, que hoje classificam como magistério. Não tinha muitas amigas, mas as amizades que fiz permanecem até hoje. Ia ao colégio de ônibus, que demorava em torno de quarenta e cinco minutos, a estrada era de chão e passava pela ponte Hercílio Luz, a única na época ligando o continente à ilha.
Eu questionava muito o fato de ter mudado de cidade, mas depois que comecei os estudos, fiquei mais tranquila, estudava, dava aulas particulares para crianças com dificuldades de aprendizagem.
Fui professora de adultos à noite, no Bairro de Coqueiros, e aprendi que disciplina e boa vontade andam juntas, não tinha medo, apesar de meus pais ficarem preocupados. Nessa época não havia tanta violência como atualmente.
Continuei os estudos, trabalhei e hoje sou aposentada.
          Cleide.
Crédito da foto: Edna Domenica Merola.


Florianópolis, 01 de maio de 2016
Versos

Quanta gente existe por aí
que fala tanto e não diz nada!
Sem lenço e sem documento:
Bêbado com chapéu-coco...