quarta-feira, 29 de março de 2017

Sínteses das Oficinas de Criação Literária do NETI - 2017.1. Edna Domenica Merola.

Desenho de Planejamento (MEROLA, 2017)
 Oficinas de Criação Literária do NETI, 2017.1 
Fundamentos,Objetivos, Atividades, Estratégias


"Para construir o estado de criador (a) é preciso saber esvaziar a mente."

ADENDO I- Material para construir seu relógio de memórias:
‒ Considerando que 1 é a data de seu nascimento e 12 o dia de hoje, construa um Relógio de Memórias incluindo os itens: entrada na escola, primeiro amor, primeiro emprego, nascimento do primeiro filho,  falecimento do pai, primeira vez que votou para presidente brasileirofalecimento da mãe, percepção de mudanças tecnológicas, mudança para a cidade em que mora hoje (ou outras mudanças tais como divórcio, viuvez), conscientização da entrada na maturidade. 
‒ A partir do Relógio de Memórias, os alunos receberam a proposta de escrever uma carta de apresentação tendo por destinatária a professora das Oficinas.


ADENDO II - PROTÓTIPOS E PERSONAGENS. 30/3/2017.
PROTÓTIPO 1: Personagem Lucíola

Esse protótipo foi construído a partir dos dados fornecidos por cinco alunas e dois alunos nascidos entre 1935 e 1943. Todas as datas resultam de médias  a partir dos dados da amostra obtida em 16/3/2017.

Personagem 1
Nascimento
Entrada na escola
amor
1º emprego
1º voto presidente
Nascimento 1º filho
Mudanças
Percepção
maturidade
Falecimento
pai
Falecimento  mãe
Mudanças tecnológicas
Lucíola
1940
1946
1955
1957
1960
1966
1975 
1978
1980
1991
1992


PROTÓTIPO 2: Personagem Simone

Esse protótipo foi construído a partir dos dados fornecidos por seis alunas e três alunos nascidos entre 1946 e 1954. Todas as datas resultam de médias  a partir dos dados da amostra obtida em 16/3/2017.


Personagem 2
Nascimento
Entrada na escola
amor
1º emprego
Nascimento 1º filho
Falecimento pai
Percepção
Mudanças
tecnológicas
1º voto presidente
Percepção da
Maturidade
Mudança,
divórcio,
viuvez
Falecimento mãe
Simone
1950
1957
1965
1967
1975
1982
1983
1989
1989
1995
2000

PROTÓTIPO 3: Personagem Evelyn

Esse protótipo foi construído a partir dos dados fornecidos por cinco alunas e dois alunos nascidos entre 1957 e 1964. Todas as datas resultam de médias  a partir dos dados da amostra obtida em 16/3/2017.

Personagem 3
Nascimento
Entrada na escola
amor
1º emprego
Nascimento 1º filho
1º voto presidente
Falecimento pai
Percepção
mudanças
tecnológicas
Mudança,
divórcio,
viuvez
 Percepção da
maturidade
Falecimento  mãe
Evelyn
1960
1967
1973
1978
1986
1989
1994
1997
1999
2001
2003







ADENDO III - Produziram textos a partir da estratégia Relógio de Memórias na oficina de 16/3/2016, ministrada por Edna Domenica Merola: Adolfo Ern Filho; Augusto César de Abreu Teodoro; Áurea Ávila Wolff; Auri Silva; Denise Teresa Pacheco; Hans Christian Wiedelmann; Láercio de Melo Duarte; Mara Lúcia Bedin; Maria Dulce Ribeiro; Maria da Graça Louzada Miranda; Maria de Fátima Mota Zampieri; Marlene Xavier Nobre; Nídia Maria de Leon Nóbrega; Querubina Ribas Pereira; Sandra Saad Fraiha; Sara Walmott Borges; Wanderley Ribeiro da Costa; Wilma Generini de Oliveira.


Páginas dos alunos matriculados em 2017.1

Adolfo Ern Filho
Augusto César de Abreu Teodoro

Auri Silva


Láercio de Melo Duarte

Querubina Ribas Pereira









Textos de Wanderley Ribeiro da Costa nas Oficinas de Criação Literária do NETI


Foi numa tarde ensolarada de verão, no bairro do Belém, São Paulo, capital, às 15 horas e sete minutos do dia 30 de novembro de 1957, que veio ao mundo uma criança rechonchuda e feliz, ávida para os novos desafios que se descortinariam. 
No decorrer da primeira infância, em 1964, começo meu processo de alfabetização, no grupo escolar Dr. Reinaldo Ribeiro da Silva, e aí, em meio a um turbilhão de emoções, em 1965, conheço Viviane, uma menina linda, meiga, inteligente e gentil. Despertava em mim um novo sentimento, que hoje sei tratar-se de um amor platônico, lamentavelmente não correspondido. Bom, o amigo tempo, sempre apressado, me leva para 1972, e num contexto familiar de extrema carência financeira, me vi trabalhando em uma empresa multinacional alemã, a Voith S/A, onde ficaria até 1990. Foi uma mudança brusca para mim, ter que trabalhar durante o dia e estudar a noite, romper com meu grupo de amigos e ainda mudar de bairro, mas sobrevivi. Em 1979 nosso alicerce familiar se abala com a morte prematura e fulminante de meu pai, teve um infarto. Aqui aprendemos a nos reinventar e a encontrar forças onde não supúnhamos tê-la. Mas como a vida opera um ciclo mágico de renovação, nasce em 1983 meu filho/sobrinho, filho único de minha irmã, que veio a falecer em 2006, trazendo calor, alegria e uma infinita gama de emoções aos nossos corações. Bom em 1989 experimento a emoção de ser cidadão, votando para presidente, e me engajando informalmente, pois acreditava em mudanças para o país, na campanha de meu candidato derrotado. o ano era 1990, e mais uma vez o infarto visita nosso lar, levando do convívio amoroso,  a estrela guia de nossa nau, minha mãe, mulher forte, centrada, bondosa, firme e serena. Em meio a tantas rupturas, me desliguei da empresa que trabalhava e montei meu primeiro comércio em 1991, uma floricultura. Com o decorrer deste desafio me vi obrigado a entender as ferramentas proporcionadas pelas novas tecnologias, tarefa que busco até hoje. No ano de 2002 resolvi não procrastinar mais um medo que me acompanhava desta uma triste brincadeira na infância, o mar, e assim fui aprender a nadar, e junto a este aprendizado, a aceitar e compreender as mudanças físicas, emocionais e psicológicas que advém com a maturidade. O tempo agora me trás ao ano de 2012, e mais uma vez encaro o desafio da mudança, de cidade e de atividade profissional, mudei-me para esta adorável Florianópolis assumindo uma padaria, desafio e tanto, para alguém fora do ramo, a experiência foi incrível, durou um pouco mais de cinco anos. Hoje, bem, espero que de coração, e mente abertos, desfrutar deste novo aprendizado, pois pelo pouco que percebi, seremos conduzidos por uma hábil maestrina.

domingo, 26 de março de 2017

Textos de Auri Silva, nas Oficinas de Criação Literária do N.E.T.I.


http://mcarmenepv.blogspot.com.br/2013/01/una-paloma-por-la-paz.html

Florianópolis, 16 de março de 2017.
   Edna,

Nasci em 1946, trazendo a paz, com o final da segunda guerra mundial em 1945.
Em junho de 1950, uma grande perda com o falecimento do meu pai.
Entrei para o Grupo Escolar Estadual Silveira de Souza, em 1953. Em 1954, o Presidente da República Getúlio Vargas, suicidou.
Meu amor platônico foi uma loirinha que era minha vizinha de frente, isso em l961.
Em 1966, fui contratado pela Caixa Econômica Federal de Santa Catarina, como escriturário.
Com o meu casamento, em 1976, adquiri minha maturidade.
Minha mãe faleceu em 1976, deixando muitas saudades.
Meu primeiro filho nasceu em 1977, trazendo muita alegria para a família.
Em 1979, mudei do centro: da casa onde praticamente nasci, para o bairro João Paulo, no norte da Ilha de Santa Catarina.
Votei pela primeira vez para Presidente da República, em 1989.
Em 1996, a família adquiriu um micro-computador, trazendo a minha adaptação às novas tecnologias.

Hoje assisti à primeira aula, no NETI, no curso de Oficina de Criação Literária. Estou muito feliz, porque conheci pessoas muito legais e educadas.

Textos de Fátima Zampieri nas Oficinas de Criação Literária do N.E.T.I.

Florianópolis, 23 de março de 2017.
Aos novos amigos, conto um pouco de minha vida...

O som do “Desaranha” entrou tímido e suavemente pela janela do meu quarto para lembrar que hoje é dia de Florianópolis, a ilha cantada, em verso e prosa, e estudada por Franklin Cascaes; um pequeno pedacinho de terra, “não” tão perdido no mar, a ilha da magia, com tradições açorianas e encantamento.
Lembro que hoje é quinta-feira, dua da oficina de criação literária, dia em que teria o compromisso de, usando o Relógio de Memórias, redigir cronologicamente fatos que são parte importante do meu viver.
Confesso que me dei conta de que não é fácil falar de mim. Um dos motivos: rever toda uma trajetória e refletir sobre ela, e outro, a dificuldade de redigir situações que não fossem técnicas, já que nos últimos vinte anos tenho escrito artigos técnicos ligados à área obstétrica e neonatal, com embasamento teórico e metodológico de autores da área. Sempre traduzi nos textos minha filosofia de pensamento, o cuidado humanizado no nascimento e os valores éticos que tento seguir. Contudo, de certa forma, esta demanda me fez deixar de lado a poesia e a ternura que tentei rabiscar na minha adolescência. Em alguns momentos, me fez sentir engessada e pressionada pela necessidade e apelo à produção científica, exigida pela academia e instituições de fomento.
Tudo começou com o meu nascimento. Nasci em 1961, em Florianópolis, na Rua Carlos Correia. Tenho orgulho de ser manezinha. Amo esta ilha, com seu mar azul e praias brancas. Adoro a conversa dos pescadores e “contação” de casos pela manhã e no final de tarde, ao lado das canoas, nem sempre cheias de peixe. Sou a filha mais velha. Nasci prematura e lutei muito para viver. Minha hipotermia foi superada pelo amor de meus pais e o uso de criatividade, usando tijolos para aquecer minha pequena cama.
Em 1968 comecei a estudar no Curso Elementar Menino Jesus, meu coleginho. Era a menor da turma e sempre tinha o colo da diretora e das professoras. Todos se conheciam. Lembro-me de minhas professoras Elizabeth, Dilva, Leonilda e Maria José e de muitas amigas. Algumas fazem parte do meu convívio até hoje. Minhas mestras me ensinaram a ler, a fazer contas, a trabalhar em grupos, a pesquisar, redigir, a me encantar com a vida, respeitar o outro, tão difícil hoje em dia, e a me maravilhar com as coisas simples: pular corda; brincar de elástico; correr atrás das freiras e puxar o seu hábito para descobrir, se tinham cabelos; cantar o hino; brincar de “queimei” e de esconder; pintar andar de balanço e na gangorra, jogar bola e roubar bolacha da cozinha das irmãzinhas. Lembro-me dos piqueniques, passeios, gincanas, festas juninas para angariar recursos e fico feliz por ter contribuído para a construção física e filosófica daquela instituição de ensino.
Já o primeiro “AMOR”! Foram tantas pessoas importantes que passaram pela minha vida. Pergunto-me. Será que tive um grande Amor? Na adolescência conheci um menino em um baile de Carnaval e quando me abraçou me senti protegida e querida. Na nossa inocência, nos demos a mão. Foi meu primeiro namorado, mesmo que um tanto platônico.
Em 1979, entrei na Universidade no Curso de Enfermagem. Inicialmente houve dúvidas em relação ao curso porque não tinha muita aderência à doença. Realize-me na prevenção de doenças e, especialmente, na promoção da saúde, e posso dizer que sempre amei o que fiz. Tive muita sorte na vida.
O tempo na Universidade foi um grande aprendizado. Novas realidades e pessoas. Abertura de novos horizontes. Um passo importante para minha maturidade. Era um tempo de ditadura, de luta estudantil, e mesmo com medo da repressão, participava do centro acadêmico, das discussões em frente da reitoria, “novembrada”, das festas e forros, boates na Engenharia e Dizzy.  Aproveitei todas as oportunidades para o lazer e para o estudo. Fui bolsista e monitora de várias disciplinas. Lembro ainda das lutas para manter a ponta do coral como espaço para o lazer da comunidade, com as apresentações do Grupo Engenho e Expresso Rural sob a lua cheia. Maravilha!
Em 1980 ou 1981, não sei precisamente, porque me esforço para não lembrar, perdi meu irmão de forma boba nas águas da Lagoa da Conceição, uma pessoa alegre que congregava todos os amigos, os escoteiros e bandeirantes, ao som do violão e da gaita, uma pessoa do bem que acredito olha por mim nos momentos de dificuldade. Tempos muito tristes para minha família, sobretudo para meus pais.
Em 1981, conheci meu marido em um projeto Rondon, em Santarém, a primeira vez que andei de avião e que sai mais de uma semana de casa. A oportunidade de andar no Tapajós e no Rio Negro, vacinar e cuidar das comunidades ribeirinhas que surgiam em seus barcos em um piscar de olhos. Também de trabalhar nos centros de saúde.  O primeiro namoro firme e duradouro.
Meu primeiro emprego, contradizendo todos os meus desejos profissionais, foi na psiquiatria em 1983, no Hospital Colônia Santa. Aprendi muito com aqueles rotulados de “loucos”, muitos deles pessoas com grau de sensibilidade e conhecimento que vão além do que a sociedade aceita, e que por ironia precisam ser isolados nos grandes manicômios. Foi uma escola de vida e um dos momentos que contribuiu, sobremaneira, para melhorar o relacionamento com as pessoas e aceitar o diferente.
Em 1985, casei e mudei de cidade. Fui morar em Joinville. Trabalhei em uma maternidade e tive a primeira experiência na gerência de uma instituição de saúde. Foram grandes mudanças: de cidade, estado civil, casa e serviço. Senti muita saudade do cheiro e da brisa do mar, do jeito manezinho de falar, da minha família e dos meus amigos. Procurei para morar o único lugar em Joinville que recebe a brisa do Mar. Fiz grandes amigos.
Construí minha história de vida junto com meu marido. Já faz 34 anos que nos conhecemos e desta união nasceram as pessoas que mais amo em minha vida: minhas filhas. Gabriela nasceu em 1988, de cesariana e Juliana em 1990, de parto normal. Foram os momentos mais felizes de minha vida. Amamentei as duas bastante tempo, a Juliana parou de mamar quase com dois anos. Minha casa vivia cheia de meninas e meninos.  Entre erros e acertos para educá-las, sempre estive por perto, junto com seus amigos, lutando para felicidade e realização delas como pessoas. Hoje são mulheres e lutam para conquistar seu espaço e serem valorizadas no mercado de trabalho. Tem seus amores e iniciam um novo ciclo de vida, mas pasmem, às vezes, as vejo ainda como aquelas menininhas que precisavam de cuidado e proteção.
Em 1989 votei pela primeira vez para presidente, depois das “diretas já”, no Color. Acreditei que o país poderia crescer, ter liberdade de expressão, ser autossuficiente e ser governado de forma democrática e ética, mas para minha tristeza, tivemos que ir para a rua e brigar pelo “impeachment”.
O que vejo hoje é um país atolado na corrupção, paralisado pela incompetência de seus governantes no uso de recursos, falta de decoro dos seus representantes, mídia que atende aos interesses financeiros e do mercado. Desemprego, insegurança, violência, desrespeito. Contudo, ainda tenho esperanças no povo brasileiro que ainda não tem noção da força que tem para mudar este país, para torná-lo uma potência, para manter os valores éticos, para preservar o ambiente e a vida humana. Acredito muito nestas gerações que estão surgindo, que precisam motivar esta virada. Continuo achando que o Brasil ainda é o melhor país para viver.
Uma das mudanças importantes também foi o retorno à Florianópolis, em 1994. O cheiro do mar, o boi de mamão, as festas do Espírito Santo e da Laranja. Santo Antônio. Ribeirão da Ilha. A volta à minha terra foi concomitante a outra grande transformação que teve um impacto bem grande em minha vida: foi o ingresso na Universidade Federal de Santa Catarina, como docente, neste mesmo ano.
No dia de minha aprovação, andei pelos corredores desta universidade, meio perdida, lembrando-me do tempo que ingressei na graduação nessa Universidade; com um peso grande sobre os ombros, pois a partir daquele momento passaria a ter a responsabilidade pela formação de pessoas que cuidam de outras pessoas. Ensinar a prestar uma atenção humanizada, qualificada e compromissada, colocando-me no lugar do outro e, ao mesmo tempo, aprender com estas pessoas, com os alunos e profissionais. Não dormi várias noites.  Não posso me queixar sempre trabalhei com o que gosto e nesta instituição não foi diferente. As mulheres e a promoção da sua saúde: foi neste trilho que pautei a minha vida acadêmica e me realizei profissionalmente. Foram muitas conquistas, muito além do que poderia imaginar.
Foi na universidade que, nos idos de 1996 ou 1997, tive o contato com a tecnologia. Oh dificuldade! Sou da era do telefone manual, da máquina de datilografia, do televisor preto e branco e, iniciar um mestrado e, depois, um Doutorado, que exigia a informática, necessitou um grande aprendizado e, até, uma mudança de paradigma. Depois do computador, o progresso tecnológico evoluiu tão rapidamente e invadiu nossas vidas que hoje a sua falta resultaria em caos nas comunicações e relações sociais.  Admito que tenho algumas resistências com algumas tecnologias, sobretudo com o smartphone e não o vejo como acessório essencial em minha vida como acontece com esta nova geração que já nasce mexendo em tabletes, tirando “selvies” e com o controle da televisão digital na mão. Utilizo apenas quando necessário, mas sou cobrada por esta opção diariamente. Sinto falta dos diálogos pessoalmente e por telefone. Atropelada pelo whatsapp, o face book, e os e-mails que nos facilitam a vida em alguns momentos, mas que nos enredam, nos aprisionam e nos fazem perder tempo, quando viajamos sem rumo pelas redes sociais.
Hoje, passada toda aquela trajetória, na primeira semana de aposentadoria, olho para atrás e me pergunto: 
‒ Será que cumpri com a minha missão?
Surge um sentimento de perda, mesmo que a aposentadoria tenha sido uma opção pessoal. Dá uma sensação de liberdade, de dever cumprido, de realização e, ao mesmo tempo, de envelhecimento e de finitude. A certeza que tenho é que sempre trabalhei com amor, sempre procurei ser ética e dar o meu “melhor” nesta Instituição, representando-a nos diversos contextos, de acordo com os seus princípios e filosofia.
Hoje sentimentos se misturam. Mexer em tudo o que construí, limpar minha sala, esvaziar minha mesa de trabalho, transferir meus projetos a outros docentes para que tenham continuidade, deixar de fazer parte desta família e deixar para traz mais de vinte anos de serviço. Não, não é muito fácil. Por outro lado, ter oportunidade de realizar outros projetos é algo instigante. Cuidar de mim, viajar, retomar antigas amizades, oportunizar encontros familiares, outras oportunidades de atuação profissional.
Invadindo esta reflexão, neste momento, um novo som entra no meu quarto, o Rancho de Amor a Ilha, finalizando a festa em comemoração aos 344 anos de Florianópolis. Fogos de todas as cores são desenhados no céu e refletem na água escura da Baía Norte. Um novo ano finalizou, um novo ano na história desta ilha e da minha história e outro está por vir...
Uma etapa na minha vida está gradativamente finalizando, não de todo, já que continuarei voluntariamente a desenvolver algumas práticas direcionadas à Comunidade e à pesquisa na UFSC. Como os fogos, novos desenhos surgirão em minha vida, novas pessoas e novos projetos, uma renovação e oportunidade para recomeçar.
Um dos projetos é contar histórias para as crianças carentes da periferia de Florianópolis e escrever estórias para elas. É um desafio grande. Muitas leituras têm que ser feitas.  Certamente a troca e o compartilhamento das histórias dos participantes destas oficinas serão os propulsores para trilhar esta nova trajetória. Conto com todos nesta caminhada. 

sexta-feira, 24 de março de 2017

Textos de Áurea Ávila Wolff nas Oficinas de Criação Literária do N.E.T.I.


Áurea cultiva amigos, solidariedade e rosas. Gosta do campo, da agricultura, da jardinagem, da escrita. Dedica-se à vida em família, principalmente aos netos. Participou das Oficinas de Criação Literária do NETI em 2014. Participou da XV SEPEX, em 21/10/2016. Retornou às oficinas em 2017.




RELÓGIO DE MEMÓRIAS
Florianópolis, 16 de março de 2017.
Oi, Edna,
Nasci no dia 24 de agosto de 1935 em Três Riachos, zona rural de Biguaçu. Meus pais tiveram 4 filhos homens e 10 anos depois nasceu minha irmã e eu 4 anos depois. Meus irmãos já eram moços quando eu nasci.
Em1940, meu pai construiu uma sala na sua propriedade, na frente da nossa casa, para ser escola que  não havia na região. Com esta facilidade fui para a escola aos 5 anos de idade, e logo aprendi a ler e escrever.
Em 1952, com 17 anos, fui ao meu primeiro baile e lá me convidou para dançar um jovem de outra cidade, dançamos todo o tempo e nos apaixonamos. Foi o meu primeiro e único amor.
Em 1955, quando tinha 20 anos, houve eleição para presidente da República e os candidatos eram Juscelino Kubischeque de Oliveira do PSD  para presidente e João Goulart do PTB para vice presidente e  Juarez Távora da UDN e Milton Campos do PDC para vice. Ademar de Barros do PSP e Plínio Salgado do PRP também eram candidatos para presidente.  Esta foi a primeira vez que usei meu título de eleitor.
Veja, na tabela abaixo, quais foram os candidatos e os resultados que alcançaram naquela eleição.
3.077.411
35,68%
2.610.462
30,27%
2.222.725
25,77%
714.379
8,28%
Votos nominais
8.624.977
Votos brancos
161.852
Votos nulos
310.185
Votos apurados
9.097.014
Fonte: IBGE
1956 marcou o começo das decisões de vida de casamento, de trabalho, início da maturidade.
No ano de 1957, comecei a trabalhar como professora do curso primário no Grupo Escolar Professor José Brasilício, de Biguaçu.
Em 1958, nasceu meu primeiro filho, foi uma nova experiência maravilhosa da minha vida, misteriosa e muito cheia de doçura e de encantamento.
Em 1968, depois de viver perto dele durante toda a minha vida, um mês depois de  nos afastarmos  por motivo de trabalho do meu marido meu pai  morre longe de mim.
Em 1983, todo o meu trabalho de palestras e de redações eram escritos a mão. Surgiu a necessidade de uma ajuda e a encontrei no computador que comecei a usar neste ano pata escrever meus textos.
Em 1990, também minha mãe sempre viveu comigo e para ficar um tempo com minha irmã ela foi para São Paulo e lá também faleceu longe de mim, com 96 anos.
Em 2012, neste ano morre meu marido depois de 54 anos de casados, de vivermos uma vida de  encantos e desencantos, de surpresas de derrotas e vitórias, vivemos tudo o que tínhamos direito.
Hoje: dia 16 de março de 2017, estou voltando a frequentar as aulas da Oficina de Criação Literária porque gosto de escrever.  No semestre que frequentei a oficina em 2014, escrevi muito mais e tenho alimentado o sonho de escrever um livro. E o teu incentivo Edna, é sem dúvida um grande empurrão para não desistir. Agradeço tua dedicação e entusiasmo por nós teus alunos.

Abraços, Áurea.



Florianópolis, 05 de março de 2017.
Boa noite, Edna.

Hoje tive um dia movimentado. Vim ontem do sítio depois de uma semana com muito calor que me deixou trabalhar na horta poucas horas.  Mas com a alegria de ver as galinhas aprenderem a sair e entrar num novo galinheiro, guiadas por um galo todo branquinho que o pequeno Arthur chamou de Floquinhos. Foi a minha novela das sete no canal TV Galinácea.
Hoje fiquei com o Arthur para a mãe dele ir fazer um curso. E a Luiza veio ficar comigo. Chegou às 10 horas com o filho e a nora.
Depois meu filho e a minha nora também chegaram e passamos um dia muito alegre. Dentro de casa, empurrados pelo forte calor da rua, participamos das brincadeiras e fantasias do Arthur.
Fizemos o almoço, almoçamos juntos festejamos o aniversário da minha nora, agradecemos a Deus pelo alimento do corpo e do coração, comemos bolo de aniversário de sobremesa.
À tarde fui ao aniversário de uma companheira do grupo das idosas, logo depois da trovoada.
Voltei cedo do aniversário, coloquei o Arthur na cama, contei a história da festa no céu, despedi-me das visitas.
Tudo arrumado, caí na cama e dormi muito cansada.
Depois de dormir um bom sono acordei. E aí “o pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar"...
Entre voar, ler, abrir a TV, cheguei ao computador que estava fechado há três dias. Fiquei feliz ao ver que tinha e-mail teu. E lá estava o meu nome na lista dos "que retornaram" às oficinas de criação literária. Legal!
E havia o endereço da minha página no blog Netiativo. Fui ler. Muita coisa nunca mais tinha lido. Confesso que é um trabalho que me surpreende pela delicadeza, paciência e dedicação com que é colocado à nossa disposição. Esconde a grandeza de um coração apaixonado pelo que faz, pelo que vive e pela humanidade que está a sua volta, aqui e agora. Agradeço a Deus pela tua vida, Edna. E por me colocar no teu caminho.
Abraços, Áurea.


E-mails
16/2/2017
Valda,
Hoje, mais liberada,  estou lendo via computador. Abri  seus trabalhos e me senti muito feliz de ler um texto cheio de vida e esperança, que mostra  uma  alma generosa e boa, reunindo suas forças para vencer o medo e continuar a caminhada.  Que não quer se deixar vencer nem pelos sofrimentos, nem pela solidão, mas quer se libertar das amarras  e seguir em frente. Parabéns Valda, me deliciei na beleza da vida que está dentro de cada palavra.
Áurea.

2/3/2017
Valda,
Não sei por que me chamas de dona. Somos colegas de curso, viúvas, da terceira idade, sofrendo pela perda do companheiro de muitos anos, tentando preencher o vazio da solidão e a saudade, escrevendo, rezando, nos agarrando na bondade e na misericórdia de outras pessoas.
Somos companheiras nesta viagem e podemos nos ajudar dando do pouco que ainda nos resta de força e de alegria.
Abraços, Áurea.

FIM DE ANO 2016
Passou com alegria de ver                                                
os filhos caminhando
Buscando na trilha se encontrar
Curtindo desencantos, desilusões, mas andando.
Com firmeza, para o bem espalhar.
E os netos, crescendo, crescendo
E na estrada limites ultrapassando
Com saúde no corpo e na mente
Com encanto a vida passando
Companheiras do grupo de idosas,
Cansadas da longa jornada
Buscam carinho, amizade, conforto
E se alegram por pouco ou por nada
Amigos antigos, de muitos anos.
 Que compartilharam suas andanças
Curtem saudades, doçuras, bons tempos.
E sorriem com as doces lembranças
Novos companheiros conferindo amores
Pela música, escrita, dança, poesia
Reforçam os passos cansados do trabalho
E neles encontram-se com a alegria
Como todos, sem saber o que vem,
No ano novo que começa
Hoje dá risadas gostosas, venceu esta etapa.
E que o mais vem, de Deus apareça
Desejo a todos que possamos 
caminhar com alegria neste novo ano.

Florianópolis, 31/12/2016                           
Bom dia, Edna.

Não tenho trabalhado na horta, mas ficado muito tempo lendo e escrevendo. Está muito quente, mas fico no ar condicionado curtindo tudo o que tenho direito com relação a mim mesma.
2016 está terminando, é apenas um pequeno detalhe. 2017 começa. Outro pequeno detalhe.
A noite continua acontecendo, o sol continua nascendo, a chuva continua caindo, as pessoas continuam comendo, amando, rezando, dormindo. O que muda... Novos sonhos, novas esperanças, novos projetos...
Para mim continua tudo como está: sou feliz festejando, ficando sozinha, hoje ou amanhã porque tenho a mim mesma para festejar e tenho Deus para me acompanhar.
Quando meus escritos te aborrecerem, por favor, me avisa. Tenho outros amigos que não curtem escrever. Para eles tenho o carinho e atenção. Para a família o meu amor. A ti envio o que escrevo.
Desejo-te um bom encontro contigo mesma neste fim de ano e felicidade verdadeira em 2017.


Abraços, Áurea.

E-MAIL. 25/12/2016
Boa tarde Edna. Ontem foi um dia diferente. Já pela manhã recebi uma mensagem no whats app de uma pessoa que não estava nos meus contatos. Tinha uma foto. Eu sabia que era conhecido, mas não conseguia reconhecer. Aceitei e mandei de volta perguntando: "quem és tu".   A resposta veio logo: Eu sou FULANO da FULANA de PA. "Claro. Sozinho na foto, não tens graça". E veio uma foto do casal. Uma emoção forte me encheu os olhos de lágrimas. Chorei de soluçar. Este casal (como muitos outros... Não sei a conta) foi nosso hóspede durante muitos dias. Para nós os ajudarmos a escrever as palestras do EMM. Fomos a PA e ficamos em sua casa porque eles trabalhavam e não podiam se ausentar de sua cidade. Foram 30 anos. E um sentimento de alegria muito grande me invadiu, e junto veio a saudade de tudo que passamos juntos, de tantas horas de cansaço, de compartilhar a vida, de aprender a escutar com o coração, de fazer a diferença tão simples e tão difícil entre sentimentos e pensamentos. Muitas vezes me surpreendo com o silêncio de tantos casais para quem demos tudo o que tínhamos: nosso amor, nossa casa, nossas lutas erros e acertos, nosso tempo, alegrias e tristezas e fico pensando se ainda se lembram de nós. Eu os amo a cada um, tenho a cada um no coração e desejo que continuem vivendo os valores que com tanto entusiasmo nós vivemos como casal e que com alegria demos a eles com nosso carinho. Este casal que me mandou a mensagem me desejava um feliz natal e me dizia que estão escrevendo novas palestras para ajudarem outros a viverem o que passamos para eles. Eu não conseguia parar de chorar e fiquei assim todo o dia de ontem. Sempre nas nossas conversas dizíamos que estávamos neste trabalho de doação porque ele alimentava a nossa vida de casal nos dando força e coragem para enfrentar nossas próprias dificuldades e que não podíamos esperar recompensa porque a nossa recompensa era o amor que nos unia e se fortalecia. Amo os casais que passaram na nossa vida e mesmo com seu silêncio e ausência sei que também nos tem no coração e continuam sua luta para ser o melhor casal que puderem ser. E DESEJO A TODOS UM FELIZ NATAL. Edna, foi um dia de lágrimas. Eu devia ir à missa, mas queria ficar sozinha e viver o meu momento. Dei-me o direito de chorar. Não era tristeza, mas emoção ao pensar que minha vida não foi em vão.  O padre que nos ajudou neste trabalho nos dizia: "Deus não se deixa vencer em generosidade" Deus tem sido generoso comigo, muito mais do que mereço.
Quando começou a trovejar eu pensei: não vou poder ir à missa com trovoada. Tenho uma desculpa.  Estava quase na hora de me arrumar.
E a filha me perguntou se eu não ia à missa. Ela ia para me acompanhar. Eu disse que não. É físico ou emocional?... Os dois. Na verdade eu estava cansada de chorar. Tranquei-me no quarto e fui tomar banho. E aquela força que me empurrava para a nossa missão, mesmo cansada me empurrou para me arrumar e sair para a missa. Quando tínhamos um trabalho a fazer e o desânimo ou cansaço queria tomar conta de mim, ele se enchia de força e era o meu tubarão que movia as águas e me dava novo sabor. Quando tudo isso batia nele, eu era o tubarão. Ontem não tinha tubarão. Não sei quem me empurrou. Mas me arrumei. Talvez a gratidão pelos meus olhos novos. A missa era às 18 horas e o nosso grupo de canto participou e eu estava lá. Cantei com toda a força e não chorei.  Ainda não tenho fortes laços com o grupo, mas é lá que ainda canto. E isso é muito bom.
Hoje estou sozinha, abri os emails e tinha um teu da semana passada convidando para a reunião. Pensei que não tinha te desejado um feliz Natal. Comecei uma mensagem de feliz Natal e saiu um compartilhar. Já parei de chorar. E te desejo um feliz Natal com teu marido e teu filho. NADA É MAIS IMPORTANTE QUE A FAMÍLIA. Ela nos dá trabalho, nos tira do sério, não pensa igual a nós, não é perfeita, mas é a nossa família. Desejo-te um feliz Natal com a tua família. Meu abraço. Pode apagar esta mensagem. Está muito grande.


Florianópolis, 03 de janeiro de 2016.
Cara amiga,

2016 chegou e eu entrei de braços dados com ele. Quando vai se aproximando o término de um ano e o outro vai começar, eu me sinto preocupada e pensando se vou conseguir ver as luzes e escutar os fogos anunciando que a contagem de um novo tempo começou.
E foi com serena e alegre disposição que dei o braço para o Ano Novo e entrei no salão da vida para dançar, amar, rezar, caminhar e viver uma nova era.
Entre lágrimas de saudades e risos de carinho, entre rosas florindo e espinhos ferindo, em que netos desabrocham, filhos envelhecem e eu vou caminhando, me apoiando a cada dia no braço firme do novo ano.
Este braço é a força do poderoso Deus, dono do mundo, da vida e de todos nós. E a minha mão apoiada em Seu braço é a graça da fé, da esperança e do amor.
Agradeço a Deus porque estou no salão da vida e vivendo o presente do dia de hoje. Agradeço a Deus porque tenho força e alegria para te escrever e dizer que sou tua amiga, que te desejo um ano novo com muito trabalho e muitas alegrias.
Um carinhoso abraço, Áurea.

Oi, Outono, boa noite.

Estou curtindo a chuva e o frio dentro de casa sem inspiração, sem ânimo para escrever. Faço caminhadas quando a chuva passa, fico com o netinho, vou ao supermercado.
Recentemente, fui ao almoço das idosas do meu grupo e à comemoração de dois aniversários.
Cuido das minhas roseiras, arrumo algumas roupas e falo com os filhos de longe e recebo visita dos de perto. 
Pago as contas, controlo as finanças para dar tudo certo... Vou ao dentista... (que vida mais sem graça)... Sem emoção... Vejo um filme...
Nada de novo, o tempo escuro me entristece, amo o sol, a luz, as noites de luar. (Isto também passa...). 
É bom falar contigo, bom feriado.
Abraços, da Natureza Chorosa.

Florianópolis, 08 de setembro de 2015.
Oi, Amiga,
Ao ler teu escrito sobre a tua felicidade, fiquei pensando no que uma amiga me perguntou como eu me sentia ao completar 80 anos e eu disse: Sinto-me feliz.  E outra pessoa me disse: você é uma pessoa feliz.  Fiquei pensando que era isso mesmo. Eu sempre fui feliz. Porque acredito que a felicidade não se busca, não caminhamos na vida para encontrar a felicidade, mas ela está no caminho.  Eu era feliz quando pequena que ia para a escola de sandália sem meias, num lugar muito frio, quando na adolescência lia meus romances com a luz de velas ou lamparinas, até tarde. Quando num balanço de corda pendurado no estábulo eu balançava e cantava com toda a minha força todas as canções que aprendia na escola e na igreja; hino nacional, da Bandeira, canção do marinheiro, canção do expedicionário. Quando decorava em voz alta e com muito entusiasmo as poesias que as professoras me davam. Eu era feliz quando meus pais deram a nossa casa grande para meu irmão mais velho que casou e nós três, meu pai minha mãe e eu fomos morar nos fundos da casa da escola, onde tinha apenas dois quartos e uma cozinha. Onde a patente era na rua e a água era tirada do poço. E Assim eu fui feliz: quando troquei os primeiros olhares com um garoto pelo qual fiquei encantada. Quando o encontrei com outra namorada e tive uma desilusão me senti feliz que este fato me mostrava que ele não tinha o valor da fidelidade, importante para mim. Fiquei feliz ao interromper os estudos para acompanhar meus pais que foram morar num lugar onde não tinha escola para mim. Fiquei feliz quando voltei a estudar cinco anos depois mesmo sendo muito mais velha do que os outros alunos da minha turma. Quando casei era feliz ao engravidar e dar a luz a meus filhos, feliz porque tinha um tanque para lavar suas fraldas e roupas, por poder fazer suas mamadeiras, sua comida dar bando e cuidar deles Quando brigava com meu marido eu era feliz porque nossas brigas eram voltadas para construir o nosso relacionamento. Quando meu pai e minha mãe partiram para a casa do Pai eu me senti triste, mas agradecia a Deus por ter me dado um pai e mãe honestos, humanos e generosos, que me passaram tantos valores e me sentia feliz. Tive saudades dos filhos quando foram embora, mas me sentia feliz por ver que eram do bem, da justiça e do amor. Quando perdi meu marido  o grande amor da minha vida  fiquei perdida e muito triste, mas agradeci a Deus por ter me dado um companheiro esposo, amigo e amante que compartilhou comigo sua vida, feliz por estarmos juntos mesmo nos momentos de dor durante 57 anos.  Estou com 80 anos com o coração concertado pelas novas técnicas, com os olhos necessitando tirar a catarata, com outras dificuldades físicas próprias da idade, sentindo saudades das pessoas que partiram, mas me sinto feliz porque tenho fé em Deus, tenho um teto para morar, uma patente e chuveiro dentro de casa, uma máquina para lavar as roupas (abençoo quem a inventou) o pão de cada dia, filhos, genros, noras, netas e netos maravilhosos que mesmo cada um com suas limitações e dificuldades lutam com coragem e amor no caminho que cada um escolheu. Sou feliz porque estou com 80 anos.
Abraços, da amiga.

Segunda-feira, 23 de junho de 2014
Aquecer o Inverno da Vida

“Quando o inverno chegar, eu quero estar junto a ti”... Tim Maia falava do inverno certamente com o desejo de ter aquecimento para o corpo e para a alma.
O inverno me leva a pensar no frio da vida sem o calor da família, dos amigos, nos idosos sozinhos e solitários, doentes e abandonados nos leitos de hospitais e asilos.
Penso no inverno das pessoas que ficam na rua, sem ter um lugar para dormir, debaixo das pontes ou nos bancos do jardim, sem uma cama quentinha igual a minha, um banho quente e uma sopa cheirando a comida de casa...
E fico muito triste!
O inverno me lembra com muita intensidade o mínimo deste conforto material que toda criatura necessita. Desperta-me para o precioso que é o aconchego das pessoas que dão calor para a nossa vida.
E me vejo com a responsabilidade de aquecer com meu acolhimento, meu abraço, minha atenção, meu carinho todas as pessoas que vivem ou passam por mim não só na estação do inverno, mas no frio da existência...
Esperando que a primavera chegue também para toda a humanidade, trazendo além do colorido da alegria e o brilho do sol um mundo mais aquecido pelo amor, a solidariedade e pelo calor humano.

Florianópolis abril de 2014. Para Todas as Marias   

Depois de ler “São Genaro e a Professora X Maria” de Edna Domenica Merola, Rosa desligou o computador e ficou em silêncio curtindo o emaranhado de palavras que acabara de ler. Elas lhe sugeriam um esforço para esconder uma avalanche de ideias e conceitos temerosos de se mostrarem para uma gente que não ia entender a profundidade de seus sentimentos e de suas vidas.
Rosa entendia a história das Marias e desejava descrever o sentimento de solidariedade que inundou o seu coração. Rosa abriu o seu caderno de rascunho e começou a escrever. Ficou até tarde, escrevendo e riscando e acabou dormindo.
Quando acordou, estavam todas as Marias do Brasil dentro da sua cabeça, fervilhando para aflorarem destemidas, enfrentando o sol e a chuva dos tempos e dos homens.
E ela viu a Maria que a alfabetizou, magrinha, feinha, que amava aqueles alunos e dava a vida por eles. Seus alunos eram os filhos dos ricos fazendeiros?
– Não, eram os filhos dos meeiros que vinham sem sapatos e sem casacos para a escola.
E ela ensinou a eles dizendo que eram brasileiros e que tinham uma parte igual à de todos e de tudo que aqui existia.
Rosa tinha aprendido com ela a amar o Brasil, a amar as pessoas e a lutar por uma sociedade justa e sadia.
Depois surgiu doce e serena a outra Maria, que no 4º ano primário despertou no coração de Rosa o desejo de ser Maria e de dar alento e direção para todos aqueles brasileiros que nasciam cada dia, cada época.
E Rosa chorou emocionada pensando em todas as Marias que fizeram a trajetória do sonho, a peregrinação da busca e das descobertas, do trabalho, das definições e das escolhas.
Hoje ainda não terminaram suas histórias e continuam querendo construir uma sociedade melhor e mais justa, mesmo depois de muitos quilômetros rodados na estrada da vida.
Muitas Marias, que agora o conhecem, sonham e pedem a São Genaro, que encaminhe todos os brasileiros para os canais competentes da dignidade humana e para todos os santos que sabem ensinar a cada um o maior valor do mundo que é o amor.


Florianópolis, 13 de abril de 2014.
Um conto sobre outros contos.

Numa sala de aula cinco garotas foram orientadas pela professora para ler um conto e para tal deu-lhes um livro e indicou o conto que elas deveriam ler. As meninas se conheciam há pouco tempo, pois as aulas recém tinham começado. Neste primeiro momento do trabalho souberam que todas as cinco eram do signo de “virgem”. Cada uma leu silenciosamente o mesmo texto e depois tinham como tarefa escrever um comentário dizendo o que a leitura do texto trouxe a cada uma. Dado um tempo para a leitura e outro para a tarefa escrita, a professora pediu que se reunissem na frente da classe e cada uma resumisse em uma palavra a mensagem que o texto lhe sugeriu.  Agrupadas elas decidiram quem ia falar primeiro, ficando decidido quem seriam os números 1, 2, 3, 4 e 5.
Feita a apresentação do grupo das virgens, outro grupo se apresentou e todas as alunas daquela sala de aula tiveram oportunidade de falar sobre a leitura que fizeram.
Na saída, a aluna 4 do grupo de “virgens” ficou interessada em comprar um livro de contos, cujo título chamara-lhe a atenção.
O que tinha na carteira dava para comprar o livro e sobrava algo. Comprou-o. Ao chegar no estacionamento para tirar o carro ela se deu conta de que a compra aumentara o tempo ocupado por seu carro e consequentemente o valor a ser pago:
– Tenho só cinco e o estacionamento passa disso. Vou ficar devendo dois e cinquenta e pagarei na próxima semana.
– Não, disse a guardiã, eu já perdi muito dinheiro com esta história, não dá para perdoar.
E a nº 4 muito tranquilamente respondeu:
– Está bem, eu venho ainda hoje pagar os dois e cinquenta! Prometo.
Muito receosa ainda, a guardiã aceitou e sorriu para a motorista que saiu para pegar seu carro.
Foi para casa e muito curiosa, queria ler as outras histórias e abriu um espaço nos seus afazeres diários para conhecer todos os contos. Constatou que quatro dos contos se referiam ao poder de São Genaro.
– Curioso – pensou ela – essa escritora fala tanto do São Genaro e eu, que sou católica, não conheço esse santo. Ou será apenas um nome da sua fantasia ou ainda um nome qualquer para não comprometer a fama de algum santo muito conhecido?
Remoendo a curiosidade, voltou para o local da aula para pagar naquele dia mesmo o estacionamento, conforme prometera à guardiã.
Catedral de Nápole
Na volta, impulsionada ainda pela curiosidade, foi para o Google e colocou na pauta da pesquisa o nome de São Genaro. Muito surpresa, lá estava ele, com foto, história e milagres e ela começou a ler:
“Por volta do ano de 305, São Genaro era diácono da igreja da cidade de Miseno Sosio e depois foi Bispo em Benevento, cidade da região de Campânia, próxima a Nápoles (Itália), quando sofreu perseguição por parte do imperador romano Diocleciano. A tradição conta que o Santo foi reconhecido e preso pelos soldados do governador de Campânia quando se dirigia à prisão para visitar os cristãos detidos, sendo morto decapitado. Como era costume nos martírios da época, os cristãos recolheram um pouco do sangue de San Gennaro numa ampola de vidro para ser colocada diante de seu túmulo, sendo, após isso, sepultado numa estrada entre Pozzuoli e Nápoles.” 
Depois de transferir seus restos mortais por vários lugares, “já no ano de 472 da Era Cristã, os cristãos buscavam a ajuda de São Genaro. Naquela feita, o estrago da erupção do Vesúvio prometia ser catastrófico. Aturdidos com a perspectiva, os napolitanos correram para o túmulo de São Genaro e, de mãos juntas, rogaram proteção ao mártir cristão. Milagrosamente, as lavas estacionaram às portas de Nápoles, poupando-lhe o mesmo destino trágico de Pompéia.” “No ano de 1492, seus restos mortais foram transferidos para Nápoles.”
Em 1527, por ocasião de uma peste que assolou a região, Nápoles foi preservada, pelo santo. Também na cólera que assolou a região em 1884 e na erupção do Vesúvio em 1631. A devoção a São Genaro é conhecida no mundo inteiro pela liquefação do sangue do bispo mártir, que ocorre três vezes por ano: no sábado que precede o 1º domingo de maio; no dia 19 de setembro que é a festa do Santo e em 16 de dezembro, aniversário da erupção do Vesúvio em 1631.”
Contente por ter conhecido São Genaro, e agradecida aos contos da professora, a aluna 4 fez mais uma reflexão sobre os contos de São Genaro: 1- Todas as pessoas, dotadas de inteligência, cultura, capacidades e poder, recorrem a um ser maior em momentos de sua vida, porque os humanos não desvendam os mistérios e não tem as respostas às perguntas que se embrenham em cada coração. 2- Quando ela comprou o livro, pensou que precisa cuidar dos livros que tem e adquirir novos, porque a internet, assim como a eletricidade é uma força escondida da natureza que o homem conseguiu o dom de controlar, mas que não está nas mãos do homem, mas nas mãos de quem as criou.   E os livros da professora tornaram-se tesouros preciosos que ela quer guardar com muito carinho. 3- Talvez tenhamos que recorrer a San Gennaro para pedir ao Dono do Universo, a Deus, que não tire de nós a internet e a eletricidade, para não termos o destino semelhante ao de Pompéia.

Comentário: Aquece a Escrita e NETIATIVO, 24 de abril de 2014 15:46
Áurea referiu-se a quatro subtítulos de Às Voltas com as Devoções, do livro A Volta do Contador de Histórias de autoria de Edna. O conto de Áurea inicia com a narrativa de uma atividade acadêmica de leitura dramatizada feita pelo grupo das Virgens. Passa pela história de um santo e reflete sobre a religiosidade, a vida, o uso da tecnologia e a interação humana com os recursos do meio ambiente.
Domingo, 27 de setembro de 2015


Carta sobre "Olha o Pão de Maria”
Florianópolis, 25 de setembro de 2015.

Oi, Edna, boa noite.

Desejo que estejas bem e em paz para viver mais um fim de semana.
Aceitando o desafio dado para primeiro de outubro, eu me adianto e faço hoje minha tarefa com muita alegria. As perguntas que faço são muito simples.
‒ Neste texto (Olha o Pão de Maria), Maria representa a voz do povo que grita por liberdade de expressão?
‒ É um grito de socorro pela igualdade de todos, do empresário que domina e do ambulante que se agride e se arrisca para poder sobreviver?
‒ É o retrato de uma época de sofrimento e opressão minimizada pela alegria de um povo simples, honesto, acolhedor e bom?
‒ É um pedido de alívio para a amarga dureza do dia a dia envolvido pela poesia, pureza de coração e a música do povo brasileiro?
Edna, penso que estas são perguntas que faço para me certificar de que entendi a mensagem da autora.
Vou ter uma resposta?
Abraços da Áurea.


Florianópolis, 25 de setembro de 2015.
Áurea,

Respondo afirmativamente a todas as suas perguntas. Maria é uma personagem telúrica: seu ser quer se fincar na terra com todas as forças. A vida de Maria é luta pelo nascimento, pelo amor e pela liberdade. Maria tenta se afirmar, enquanto sujeito histórico, por meio da música popular: é a partir da arte que pretende perder sua invisibilidade social de ‘vendedora de rua’.
Sua leitura pôs uma lente de aumento para ver Maria mais de perto do que o próprio texto parece sustentar, numa leitura panorâmica, pelo que considero sua leitura generosa.
A essa altura você deve estar indagando o que chamo de leitura generosa.
Isso de considerar que há leituras generosas ou mesquinhas é só uma forma de ver que leva em conta certas atitudes padronizadas perante a criação do outro.
A leitura mesquinha acende holofotes sobre o que não funcionou no texto e coloca lentes de aumento sobre os 'erros', excessos ou omissões.
Já a leitura 'generosa' é para mim, não 'passar batido' no que pode haver de oportuno a ressaltar. É buscar algo para usufruir e compartilhar com prazer.
Grata pela leitura 'generosa'.
Edna Domenica Merola

ADENDO:
Para ler o texto Olha o Pão de Maria (MEROLA, 2011), vide o link

REFERÊNCIA
MEROLA, E. D. Olha o Pão de Maria. In A Volta do Contador de Histórias. Nova Letra, 2011.



Sábado, 14 de fevereiro de 2015.
PARTICIPAR DE CURSOS PARA IDOSOS: VOCÊ JÁ EXPERIMENTOU?

De cada experiência que tive nestes últimos 3 anos (após a morte do meu marido com que compartilhei a vida durante 54 anos) e nas quais busquei minha identidade no emaranhado  da solidão, na confusão da dor e na escuridão do caminho, encontro na Palavra de Deus a Luz e a Vida.
No entanto, foi marcante a participação na Oficina Literária do NETI cuja professora dá o coração dentro do invólucro dourado da poesia.  Em cada recado recebido houve algo que me tocou, me chamou e me desafiou.
Quando estou desorganizada e muito sem forças para aceitar o desafio, aproximo-me mais ainda dele.
Ele olha para mim e eu olho para ele e nós dois queremos entender um ao outro.
‒ Vou decidir amanhã, Senhor Desafio.
‒ Você sabe que precisa, porque tanta preguiça, Áurea?
‒ Como se eu não tivesse  nada para fazer... Eu não tenho tempo... Também estou muito velha. Gosto de ficar em casa.
‒ Faça as suas próprias escolhas, certas ou erradas... (Sem esquecer do prazer que há em compartilhá-las).

Sexta-feira, 28 de março de 2014.
Minha Amiga.

Esta palavra “amiga” me leva para os anos da minha infância e adolescência. Fomos morar, meus pais e eu, num lugarzinho pequeno onde os moradores eram quase todos de origem alemã. Meu pai era funcionário público, brasileiro, olhado por eles com reservas. Eu, menina de 10 anos, “temporona”  em uma família  onde os filhos  já tinham tomado seus rumos, era sorridente e tranquila,  silenciosa e falava pouco. Durante a semana eu frequentava a escola no colégio das irmãs e aos domingos ia à missa na única igreja  católica que ficava na praça.
Na igreja  cada domingo sentava ao meu lado uma menina mais ou menos da minha idade, uma galeguinha mais forte do que eu. Ela olhava para mim e sorria, eu olhava para ela e sorria. Quando terminava a missa saíamos  sem palavras e íamos juntas até à bifurcação que juntava as duas ruas onde ficavam nossas casas.  Minha rua ficava numa subida e a rua dela numa baixada de modo que víamos a rua e a casa uma da outra. Antes de entrar em casa nos dávamos um adeus. Um domingo ela  levou um santinho  e colocou-o na minha mão. Outro dia perguntou o meu nome  e eu perguntei o seu.  Eram poucas as palavras que nos dizíamos, mas um fio de amizade, de confiança e de ternura  foi nos envolvendo e ficamos grandes amigas.
Meus pais eram pessoas muito corretas e boas e com seu modo simples e honesto  conquistaram o respeito e admiração dos vizinhos que no início nem nos cumprimentavam. Minha amiga e eu tivemos uma crescente e cada dia mais forte amizade.
Nossas ruas eram separadas por um córrego e conseguimos um tronco que colocamos no pequeno riacho e serviu de ponte que nos dava oportunidade de contarmos as novidades  durante a semana.  Ela era a filha mais velha e tinha quatro irmãos mais novos e por isso precisava ajudar sua mãe nos serviços da casa.  Mas quando podia ia correndo na nossa ponte e me chamava para trocarmos algumas palavras.
Na minha casa, éramos três pessoas e minha mãe era forte e dava conta dos serviços da casa. Eu ajudava carregando água da bica, acompanhando as galinhas que estavam no mato,  sumidas, e quando as encontrava com uma ninhada de ovos ou um bando de pintinhos, fazia uma festa e ia correndo contar para a minha amiga. Seus irmãos eram os meus irmãos e eu os amava e brincava com eles. Nossos pais ficaram amigos. A adolescência chegou e timidamente  falamos sobre os garotos que nos olhavam, que achávamos interessantes, sobre as nossas intimidades de mocinhas, com a delicadeza  e respeito que tínhamos pela nossa amizade.  Dos 10 aos meus 15 anos vivemos nesta comunidade  onde experimentei  a amizade pura e desinteressada da pessoa mais  bonita que passou na minha vida.
A vida nos separou. Primeiro  a mudança nossa para outra cidade em função do trabalho do meu pai. Depois  pelo nosso casamento, nos distanciamos ainda mais.   Nos visitamos algumas vezes quando os filhos eram pequenos, alguns telefonemas,  encontros nos momentos de morte  e dor de alguém da família.  Hoje, dia 25 de março é o seu aniversário.  Faz muitos anos que não a vejo, nem falo com ela.  Mas guardo no meu coração com muito carinho o som da sua voz, seu sorriso, a delicadeza de seus gestos e uma terna saudade da minha doce amiga.

Sexta-feira, 23 de maio de 2014. A Roseira do meu Jardim.  
A roseira do meu jardim é de porte médio. Tem vários galhos, alguns com botões fechados, outros com brotos que prometem ser botões. Ela está plantada no chão, na frente da minha casa, perto de uma cerca de arame. Tem raízes profundas e espalhadas. Eu a estou sempre regando, chegando a terra e colocando adubo, cortando os galhos que vão dando flor e que as flores vão murchando e caindo. Suas rosas são cor de rosa, começam rosa forte e depois devagar vão abrindo, e abertas são de um rosa claro.  Seu tronco já foi mais frágil, agora está mais forte e mais robusto.  Suas folhas são bem verdes e eu retiro as que ficam amareladas.  Tem muitos espinhos, desde o tronco até as flores.  São espinhos fortes que me dificultam pegar uma flor. Preciso primeiro tirar os espinhos. Hoje ela está com muitos botões fechados prometendo abri-los logo.  Recebe sol, a temperatura é amena e sem vento que a castigue.  Ao seu lado tem outra roseira, árvores frutíferas, grama e outro canteiro com mudas de roseira recém-plantadas.  Estas mudas são feitas com os galhos cortados desta minha roseira.  (Comparar esta roseira comigo e com o meu estilo de personalidade não é mera coincidência.).

Marta e Drummond.

Marta, uma aluna da Escola de Criação Literária, recebeu a tarefa de escolher, entre os nomes citados por sua professora, um deles para realizar uma pesquisa. Ela escolheu falar sobre Carlos Drummond de Andrade. Sua escolha tem a ver com as poesias deste autor que muito aprecia: “E agora José”, “No meio do caminho tinha uma pedra”.
Ficou encantada com o grande número de poesias, crônicas, livros, contos, uma verdadeira riqueza da Literatura Brasileira.
Depois de se envolver com as leituras do autor, passou a se interessar por saber mais sobre sua vida e a época em que viveu este grande poeta, escritor, professor. Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira Mato Dentro,  Minas Gerais, em 1902. Desde os tempos de estudante escrevia poesias. Estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925, mas não exerceu a profissão. Ele nasceu na época  em que o movimento modernista  emergia na Europa e já havia vestígios e ideias modernistas no Brasil.  Em 1922 este movimento se fortalece no Brasil, depois  da Semana da Arte  Moderna . De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do movimento modernista mineiro. Fundou com outros escritores A Revista, que, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil. Era casado com Dolores Dutra de Morais e era pai de Maria Julieta Drummond de Andrade “O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond: A dominante é a individualidade do autor.” “Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. (1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo.”
Marta, depois de ler sobre a vida de Drummond, entendeu que enquanto o modernismo proclamava a liberdade de palavras e a instituição do verso livre, a libertação do ritmo nos versos, Drummond revelava em cada poesia e frase livre, mas austera, a preocupação em se conhecer e conhecer o mundo. Reconhece em seus escritos uma preocupação pelo ser humano, pela vida, pela sociedade e empenhado apaixonadamente em dar um sentido belo e poético e real para o mundo através de seus versos. Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987.  E Marta pensa , assim como em seu poema ele diz que as mães não deviam morrer, ela gostaria de dizer-lhe também que:
A vida passa para todos, é uma sentença assinada.
Bonitos e feios, bons e maus, negros e brancos.
Mas que ele – Carlos Drummond de Andrade – continua vivo em seus poemas, seus livros e em seus contos.


Terça-feira, 29 de abril de 2014
A luz que ilumina nossos caminhos.

– Mamãe, mamãe, a Lila me chamou de invejosa. Chegou correndo e jogou-se no colo da mãe a pequena de oito anos.  O que é invejosa, mamãe?
– Invejosa é a pessoa que tem inveja de alguém.
– E o que é inveja?
– “Inveja é um sentimento de tristeza por não termos alguma coisa que outro tem e que nós não temos. Pode ser um bem material ou um dom ou uma qualidade”.
– É feio ter inveja?
– Não minha filha. A inveja é um sentimento de tristeza e como todos os sentimentos, não tem moralidade, não é feio nem bonito. O comportamento que surge impulsionado por este sentimento é que pode ser bom ou mau. Por exemplo, se você fica com raiva porque a Lila quebrou a sua boneca, isso não é bom nem mau, é só um sentimento, você pode ficar com raiva.  Mas se você joga uma pedra na Lila levada pela sua raiva, você teve um comportamento mau e que prejudicou a sua irmã e isso é feio.  A inveja também. Se uma pessoa tem inveja de outra porque não sabe cantar e a outra sabe, isto não tem moralidade, não é feio. Se a pessoa, movida pela inveja e pelo desejo de cantar como a outra, vai à luta e procura uma aula de canto, ela está tendo um comportamento saudável. Mas se ela diz para a pessoa que canta: você é uma boba e canta muito mal, ela está tendo um comportamento grosseiro que pode prejudicar a cantora. Minha filha, você tem inveja da sua irmã?
– Acho que tenho mamãe. Ela sabe pintar coisas lindas e eu não consigo fazer nem um desenho bonito. Eu tive um sentimento de tristeza e queria ser igual a ela, queria saber pintar também.
– E o que você fez quando sentiu tristeza?
– Eu risquei todo o desenho que ela estava fazendo.  Eu tive um comportamento feio, não é mamãe?  E eu prejudiquei a minha irmã.
– É isso mesmo. E o que você pode fazer quando sentir tristeza por não saber pintar como ela?
– Posso ir para uma aula de pintura, mamãe.  E vou me esforçar para ser igual a ela.
– É isso mesmo, minha querida. Você precisa pedir desculpas à sua irmã. Mas tem uma coisa muito importante Lúcia, que você precisa saber. É que cada um de nós é uma pessoa única e especial. E tem seus dons e qualidades. Enquanto a sua irmã faz desenhos com facilidade, você sabe muito bem enfeitar os nossos bolos de aniversário.
– Então eu posso ter inveja da minha irmã, mas tenho é que motivá-la a ser melhor, é isso, mamãe?
– Sim filha, nós temos que sempre reafirmar as qualidades das pessoas que estão perto de nós para que elas brilhem sempre mais, porque a luz dos nossos irmãos pode ajudar a iluminar os nossos caminhos.

Comentários “A LUZ QUE ILUMINA NOSSOS CAMINHOS”
1-Lourdes Thomé. 29 de abril de 2014 06:37
Texto simples, direto, prático. Expressa com clareza os efeitos da inveja. Considero a história uma excelente forma de expressar ensinamentos ou posicionamentos sobre sentimentos. Identifico-me com a autora.

2- Aquece a Escrita e NETIATIVO29 de abril de 2014 07:07
De forma clara, concisa e coesa, o texto narrativo de Áurea utiliza o discurso direto. Esse recurso formal é usado para expressar conteúdos dialogados. É pois pelo diálogo 'face a face' que se dá a construção da solidariedade. A leitura desse texto foi uma linda vivência para mim. Obrigada, Áurea.

3- Cleusa Teresinha Ortiz Ribeiro29 de abril de 2014 15:45
Todos nós, temos esse sentimento, em algum momento sentimos inveja de alguém; do que outra pessoa tem de melhor; é um sentimento impulsivo quer para o bem ou para o mal. Quem de nós pobres mortais já não teve inveja de alguém ao nosso redor.
Muitas ocasiões deixamos essa inveja à mostra por meio de acusações, comparações maldosas, jogamos nossa pedra contra o outro; afim de prejudica-lo, vê-lo cair, ser um indivíduo menor que você. Mas ao mesmo tempo, somos cercados por pessoas que nos invejam com um espírito de crescimento; de ajuda como aquelas que vão à luta e conseguem vencer a inveja, e tornam-se pessoas de luz; cantam para nossa alma; procurando ser linda para ela mesma e também para os que a rodeiam. Que a luz da grandeza e da aceitação ilumine seu caminho.


Quinta-feira, 10 de abril de 2014.
Osvaldo Cabral e a Minha História.

Nasci em três Riachos, município de Biguaçu, em 1935. Meu pai era comerciante, nasceu em 1892 e foi alfabetizado em casa por uma professora que meu avô, agricultor, pagou para ensinar seus filhos a ler e escrever.
Meu pai falava da palmatória, uma madeira com furinhos que a professora usava para bater na mão do aluno que não fazia a lição e que a mão ficava inchada e doía muito. Mas apesar desse meio cruel, para ele foi muito importante a alfabetização. Despertou nele o gosto pela leitura, era assinante de seleções, comprava livros e coleções como “tesouro da juventude”.
Seu sonho era que seus filhos estudassem. Como não havia escola naquela localidade, ele construiu num terreno de sua propriedade, uma sala, que ficava situada bem na frente da sua casa de comércio e residência, de modo que só precisávamos atravessar a rua e estávamos na escola.
Com o prefeito de Biguaçu ele conseguiu carteiras, quadro negro, mesa e uma professora, que era de Biguaçu e passou a morar em três Riachos para dar aulas na “Escola Pública de Três Riachos” Meus irmãos mais velhos fizeram o primário nesta escola e continuaram fazendo a 4ª série e o Curso Complementar em Biguaçu.
Não havia ônibus ainda naquela região na década de 30 e eles usavam a aranha, (condução puxada por um cavalo e com lugar para três pessoas) para vir e voltar da escola. Dali meus irmãos partiram para outros estudos. Minha irmã e eu também fizemos o primário na escola em frente da nossa casa.
Era tudo muito simples, mas tenho gratas recordações da professora, a dona Maria Alice muito bondosa e paciente, que dava aula para as três séries na mesma hora.  Nós aprendemos a cantar o Hino Nacional, todos os sábados tinha hasteamento e homenagem à Bandeira, cantando o hino à Bandeira, declamação de versos e poesias, referentes a cada data histórica. Além de aprender a ler e escrever, recebi educação cívica e religiosa.
Mais tarde minha irmã e eu fomos com meus pais morar em Biguaçu, para ser mais fácil nossa vida de estudante. Fizemos a 4ª série, Complementar e depois eu fiz o Curso Normal Regional no Grupo Escolar Professor José Brasilício, de Biguaçu. Aí começa a minha identidade com o Professor Osvaldo Cabral.
Na década de 50 o Colégio Coração de Jesus, Colégio Catarinense e o Instituto de Educação Dias Velho eram as escolas da época. O Instituto de Educação era conhecido como rigoroso no exame de admissão ao Curso Normal.  Eu fui fazer o exame de admissão e não passei em matemática com o Professor Damiani. E fui para o Colégio de Joinville onde ainda tinha exame de admissão. Lá fiz o 1º ano do Curso Normal.
A Escola Normal em Florianópolis, funcionava inicialmente no prédio atrás do Palácio Cruz e Souza. Em 1949, passou para o prédio na Rua Saldanha Marinho com o nome de Instituto de Educação Dias Velho. Foi aí que eu frequentei o segundo e terceiro ano do Curso Normal, em 1955 e 1956, quando me formei professora normalista.
O prédio não comportava mais todos os alunos e nós passamos a ter aulas em outro prédio. Este fato trazia desconforto pelo afastamento da comunidade estudantil e passamos todos a reclamar novas acomodações e eu fui uma dessas alunas. Lembro que o discurso na nossa formatura foi um apelo neste sentido.
Em 1960, começou a construção do prédio na Av. Mauro Ramos e em 1964 as aulas passaram a acontecer no novo prédio com o nome de Instituto Estadual de Educação. Como Osvaldo Cabral, eu frequentei, em época diferente, a escola na qual me orgulho de ter me formado professora normalista. Lembrar a vida deste ilustre brasileiro me fez lembrar lindos momentos da minha vida e da minha história, que certamente receberam dele os reflexos de sua luta e de sua caminhada de professor, poeta e grande patriota.


Domingo, 30 de março de 2014.
UM SUPER HERÓI DO AMOR.

Lúcia conheceu José quando tinha 17 anos. Ele viu aquela mocinha sorridente, num baile, sentada ao redor de uma mesa com familiares e a beleza suave e delicada desta jovem chamou sua atenção. Foi até ela, estendeu-lhe a mão convidando-a para dançar. Surpresa e confiante segurou sua mão e juntos foram rodopiar no salão. Para ela, estava sendo um sonho, pois era o seu primeiro baile e para ele o encantado encontro com uma pessoa especial. Entre dançar e conversar passaram juntos a noite toda e quando se separaram ele prometeu que voltaria. Lúcia sentia-se atraída pelo modo seguro, sedutor, espontâneo, impulsivo e espirituoso de José, o oposto do seu modo de ser: tranquilo, silencioso, reflexivo indeciso e inseguro. Para José, tudo ia dar certo. Ele falava para Lúcia sobre sua vida, seus sonhos, seus planos de maneira limpa e sincera e Lúcia o escutava, mas tinha dificuldade de dizer a ele o que se passava em seu interior e na verdade às vezes nem ela mesma sabia.  E ficava calada saboreando a fala desenvolta e alegre de José.   Viverem o namoro e noivado e algum tempo depois estavam casados. Fiéis um ao outro tiveram uma vida de amor, seis filhos e uma situação sócia econômica satisfatória. O tempo passou, os filhos estavam na Universidade, mas muita coisa tinha mudado. José continuava falando de si, de seus projetos de sua carreira com entusiasmo e desenvoltura e Lúcia cada vez mais calada, não conseguia expressar-se e no momento em que vagarosamente tentava dizer o que estava sentindo, José a interrompia ajudando-a a completar a frase, mas quase sempre, não era aquilo que ela queria dizer.  Para ele tudo estava bem: tinha uma esposa bonita e fiel, filhos bons e estudiosos, uma casa e o dinheiro necessário para viver com dignidade.  Lúcia, porém, estava ficando triste, sem brilho, cada vez mais fechada no seu mundo interior, perdendo a alegria de viver.  Fazia suas obrigações de mãe de dona de casa, de esposa, mas sentia-se sozinha, incompreendida. Foi criando para si um mundo de fantasia, onde se refugiava para poder conversar com alguém. Neste mundo estavam seu marido, seus filhos, seus amigos, todos muito amáveis e disponíveis, para quem ela conseguia dizer tudo o que se passava dentro dela. Este mundo de fantasia era um lugar de conforto, de onde ela já não queria sair porque era um sofrimento enfrentar o mundo real. Algumas vezes José dizia que ela estava ficando triste, porque tinha se enganado ao casar com ele.  E perguntava:
– Você não está feliz?  E ela, timidamente respondia:
– Eu sou feliz, porque tenho vocês. E José aconselhava:
– Você precisa sair mais, vamos ao cinema, vamos a uma boate dançar, vamos fazer um passeio. Não deixava dizer o que necessitava, pois ele tinha solução para todos os problemas.
Já lá se iam 24 anos de casados e Lúcia estava morrendo para a vida. Nesta época participaram de um encontro para casais onde aprenderam um método de comunicação para o casal e foi aí que Lúcia conseguiu ver que estava caindo num poço e se afogando nas águas dos seus medos, desilusões e desencantos. Viu que estava morrendo e começou a gritar por socorro para José e conseguiu através do método de comunicação que estavam vivendo, dizer para ele o que estava se passando com ela: falou do medo que tinha de perdê-lo, de como ele era importante para ela, de como ela necessitava falar para ele das coisas que não gostava, das coisas que gostava e ele não sabia, do quanto ela precisava que ele a escutasse com relação aos filhos, ao modo de gastarem o dinheiro... Tantas coisas. E foi aí que surgiu o super herói do amor, que quando viu a sua amada no fundo do poço, ele levou um susto, mas não fugiu. Corajosamente a escutou com o coração, começou a entender a sua tristeza e seus medos e jogou a corda para ela sair do perigoso mundo da fantasia. Mas não só jogou a corda, ele se jogou junto para lhe dar suporte e força na escalada da subida. Ele arriscou sua vida, seu poder de fazer tudo dar certo, deixou de lado sua impaciência, sua prepotência, seu otimismo e segurança, sua zona de conforto como provedor, cabeça da família, chefe e senhor de tudo, e se lançou junto com ela a agarrar-se na corda do diálogo, da escuta, do compartilhar sentimentos, do confiar e arriscar-se e os dois conseguiram subir com vida para fora do abismo.  Depois de se ajudarem na busca da vida, José disse:
– Minha querida, peço perdão por ter sido prepotente, esquecendo que também você tem suas necessidades, dúvidas e medos, que você é diferente de mim, que tudo o que é bom para mim, nem sempre é bom para você.
– Eu perdoo você e peço perdão por não ter tido coragem de dizer todas as vezes que estava indisposta, cansada triste e desiludida, quando eu necessitava de atenção, ser consultada, ser confortada e aceita nas minhas inseguranças.
– Agora eu vejo como fui um marido autoritário, pensando só em mim e nas minhas necessidades. Vejo como fui impaciente, sabe tudo e arrogante. Quero a sua ajuda para cultivar a minha paciência, humildade, cumplicidade, companheirismo.
– Eu preciso da sua escuta, não para fazer o que eu quero, mas para me conhecer, pois quando você me escuta, eu me sinto uma pessoa importante.
E assim, “o super herói do amor” devolveu vida à sua amada e os dois se ajudaram a superar dificuldades, limitações e diferenças.  E experimentaram novamente o júbilo do amor renovado, cultivado com muito cuidado e carinho.  Ele voltou a ver o sorriso e o brilho nos olhos de Lúcia, e ela viu nele muito mais do que o atraente e sedutor José, mas o homem lutador, generoso e bom, honesto, bom pai, bom filho, bom amigo, a pessoa maravilhosa que estava a seu lado, capaz de se desalojar de seu próprio modo de ser para confirmar e dar sentido aos valores nos quais acredita.


Segunda-feira, 26 de maio de 2014.
Lembrando uma Época.

O texto Lembrando uma Época é decorrente de Sonhando e Vivendo (texto cujo espaço narrativo é uma comunidade) e Marta e Drummond (fruto de pesquisa sobre a vida de Carlos Drummond de Andrade).
Essa trilogia de autoria de Áurea Ávila Wolff foi elaborada como exercício de criação proposto na Oficina de Criação Literária do N.E.T.I.

Lembrando uma Época.

Marta recebeu a tarefa de fazer uma pesquisa sobre um dos nomes que sua professora da Escola de Criação Literária apresentou. Ela escolheu falar sobre Carlos Drummond de Andrade, pois gostava muito de alguns de seus versos Ao iniciar a pesquisa, Marta viu que este poeta viveu numa época em que seu pai construiu uma casa num bairro novo, e mudou-se com a família e que ela e seus irmãos eram adolescentes estudantes.  1965.  Marta lembra que as ruas não tinham calçamento nem iluminação, havia poucas casas construídas, e quando chovia as ruas ficavam alagadas. Seu pai começou a conversar com os vizinhos, a fazer amizade.  “Organizaram primeiro uma associação de bairro.  Alguns moradores passaram a se reunir toda segunda feira nas casas e surgiu a necessidade de um presidente. José foi o indicado. Com o trabalho e ajuda de todos foi construída a sede. O sonho de José era que todos os vizinhos se unissem e ajudassem;   Seu sonho se realizava e se tornava vida: festas juninas na rua, junta pratos, com participação da comunidade. Festa de Natal com Presépio vivo, encenado pelas crianças. Crianças brincando  na rua, adolescentes se reunindo nas casas.  Bom dia,  vizinho, era cumprimento usual.  As ruas foram iluminadas, calçadas com lajotas.. Muitas casas foram construídas. Nesta época  o pais  estava tumultuado com os conflitos  políticos. Com a renuncia do Presidente,  assumiu o vice que deu força para as classes operárias levando a classe média  a  temer  os ideais socialistas que se misturavam com a política do governo. Os militares tomaram o poder  e ficaram no comando do pais. Foram 21  anos de ditadura militar. As ideias  modernistas se estendiam na política, nas artes e na literatura, mas eram  reprimidas. Carlos Drummond de Andrade  já era um  poeta e  escritor desde 1920  “ O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond,: A dominante é a individualidade do autor.”   Marta, depois de ler sobre a vida de Drummond,  entendeu que enquanto o modernismo proclamava  a liberdade,  Drummond revelava em cada verso e em cada pensamento, a preocupação em se conhecer e conhecer o mundo. Reconhece em seus escritos o interesse pelo ser humano, pela vida, pela família, pela sociedade e o empenho apaixonado em dar um sentido belo, poético e real da vida para  os irmãos,  através de seus versos. Marta lembra então que neste tempo em que Drummond escrevia  sem parar lindos poemas ela e seus irmãos cursavam a Universidade. Confusos, temerosos e inseguros com a situação do pais, ela e sua família se fortaleciam nos laços de  fraternidade e de ajuda mútua.  Encontraram na Associação de Bairro e nos vizinhos a solidariedade e a união que seu pai sonhara e que os ajudou a entender e atravessar este tempo de sombras do nosso pais. Certamente Drummond também deu algo de esperança, algo de poético e de belo  para os brasileiros deste tempo através de seus versos assim como  seu pai e a comunidade que sonhou, deram esperança e força para os jovens daquela época.

Sonhando e Vivendo.

Era um bairro novo. Lotes recém-demarcados por ruas planejadas e traçadas, estavam em grande parte vazios. Naquela rua sem saída, duas casas foram construídas e já estavam habitadas.
José, um jovem arquiteto cheio de entusiasmo e otimismo constrói nesta rua a terceira casa que vai abrigar sua família. Depois de um ano, casa pronta, a mudança para a casa nova. Adaptação, contato com a escola, a Igreja a vizinhança. Casas sem muro, ruas sem calçamento, sem iluminação. Espaço aberto para a criançada brincar, para os adultos se conhecerem, se encontrarem. Este jovem José sonha com uma comunidade amiga, fraterna, onde os vizinhos se conheçam, se ajudem, se reúnam.
Os encontros começam a acontecer. Nas apresentações e conversas surgem as necessidades mais urgentes: calçamento, iluminação nas ruas. Convidam uma autoridade para uma reunião. Toda a comunidade está presente e fazem seus pedidos e a autoridade responde: “Organizem primeiro uma associação de bairro”. Ideia lançada, ação imediata, concretizada a Associação Comunitária que recebeu nome e registro. Alguns moradores passaram a se reunir toda segunda-feira nas casas e surgiu a necessidade de um presidente. José foi o indicado. Com o trabalho e ajuda de todos foi construída a sede.
O sonho de José se realizava e se tornava vida: festas juninas na rua, com mesas armadas no meio da rua, junta pratos, com participação da comunidade. Festa de Natal com Presépio vivo, encenado pelas crianças. Crianças brincando na rua, adolescentes se reunindo nas casas.
Bom dia, vizinho, era cumprimento usual. As reuniões de segunda-feira eram sagradas, mesmo que só com três ou quatro moradores.
As ruas foram iluminadas, calçadas com lajotas. O pequeno supermercado, que delícia, fazia parte da comunidade. Muitas casas foram construídas. As chuvas alagaram as casas. Vizinhos se ajudavam e acolhiam.
O bairro cresceu, mas a Associação Comunitária continua fazendo o seu papel de reunir os moradores, agora acrescida de um prédio para festas, para o grupo de idosos, para recreação infantil, campo para jogos e encontro de amigos.
José sonhou e o seu sonho se tornou vida. Porém, mais do que isso, deixou para seus filhos, amigos e todos os que o conheceram o valor da amizade, da acolhida e um grande desejo que todos os vizinhos usassem entre eles a política da boa vizinhança, do respeito e da solidariedade.

Marta e Drummond.

Marta, uma aluna da Escola de Criação Literária, recebeu a tarefa de escolher, entre os nomes citados por sua professora, um deles para realizar uma pesquisa. Ela escolheu falar sobre Carlos Drummond de Andrade. Sua escolha tem a ver com as poesias deste autor que muito aprecia: “E agora José”, “No meio do caminho tinha uma pedra”.
Ficou encantada com o grande número de poesias, crônicas, livros, contos, uma verdadeira riqueza da Literatura Brasileira.
Depois de se envolver com as leituras do autor, passou a se interessar por saber mais sobre sua vida e a época em que viveu este grande poeta, escritor, professor. Carlos Drummond de Andrade nasceu em Itabira Mato Dentro, Minas Gerais, em 1902. Desde os tempos de estudante escrevia poesias. Estudou na cidade de Belo Horizonte e com os jesuítas no Colégio Anchieta de Nova Friburgo RJ, de onde foi expulso por "insubordinação mental". Ante a insistência familiar para que obtivesse um diploma, formou-se em farmácia na cidade de Ouro Preto em 1925, mas não exerceu a profissão. Ele nasceu na época em que o movimento modernista emergia na Europa e já havia vestígios e ideias modernistas no Brasil. Em 1922 este movimento se fortalece no Brasil, depois da Semana da Arte Moderna. De novo em Belo Horizonte, começou a carreira de escritor como colaborador do Diário de Minas, que aglutinava os adeptos locais do movimento modernista mineiro. Fundou com outros escritores A Revista, que, foi importante veículo de afirmação do modernismo em Minas. Ingressou no serviço público e, em 1934, transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde foi chefe de gabinete de Gustavo Capanema, ministro da Educação, até 1945. Passou depois a trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e se aposentou em 1962. Desde 1954 colaborou como cronista no Correio da Manhã e, a partir do início de 1969, no Jornal do Brasil. Era casado com Dolores Dutra de Morais e era pai de Maria Julieta Drummond de Andrade “O modernismo não chega a ser dominante nem mesmo nos primeiros livros de Drummond: A dominante é a individualidade do autor.” “Torturado pelo passado, assombrado com o futuro, ele se detém num presente dilacerado por este e por aquele, testemunha lúcida de si mesmo e do transcurso dos homens, de um ponto de vista melancólico e cético. (1945), Drummond lançou-se ao encontro da história contemporânea e da experiência coletiva, participando, solidarizando-se social e politicamente, descobrindo na luta a explicitação de sua mais íntima apreensão para com a vida como um todo”.
Marta, depois de ler sobre a vida de Drummond, entendeu que enquanto o modernismo proclamava a liberdade de palavras e a instituição do verso livre, a libertação do ritmo nos versos, Drummond revelava em cada poesia e frase livre, mas austera, a preocupação em se conhecer e conhecer o mundo. Reconhece em seus escritos uma preocupação pelo ser humano, pela vida, pela sociedade e empenhado apaixonadamente em dar um sentido belo e poético e real para o mundo através de seus versos Carlos Drummond de Andrade morreu no Rio de Janeiro RJ, no dia 17 de agosto de 1987.  E Marta pensa , assim como em seu poema ele diz que as mães não deviam morrer, ela gostaria de dizer-lhe também que:
A vida passa para todos, é uma sentença assinada.
Bonitos e feios, bons e maus, negros e brancos.
Mas que ele – Carlos Drummond de Andrade – continua vivo em seus poemas e seus livros.

Poemas 

ARTHUR
                                                                                     
Meu garoto a falar,
Tão lindo e fofinho
Não me deixa parar
Nem fugir pro meu ninho.

A dor da saudade
As águas faz poluir e parar
Mas o pequeno tubarão
As movimenta e ajuda a limpar

Que doce menino
Alegre, gritão, barulhento.
Pede ajuda, estende a mão.

Da mãe é ternura e vida
Da Iaiá, dos primos e tios é alento.
E da vovó Aurinha uma grande paixão.   


Florianópolis, 24 de outubro de 2016. 
Arthur número 3

Arthur quatro anos e meio
Inquieto, voz forte, às vezes alheio
Os vizinhos sabem quando tu passas
Parece estar falando às massas
Espontâneo ao falar
O “r” pelo “l” ainda sabe trocar
Faz de conta que a abelha morta vai se salvar
E a coloca na água para acordar
Aviões de mentirinha e bichinhos
Voam, andam e se acomodam nos ninhos
Sentado à mesa como adulto a comer
Inquieto desafia sua mãe a aprender
1, 2, 3; precisa sentar e se comportar
Senão vai sair sem almoçar
A vovó quieta sorri e se encanta
Nas manhas que a sabedoria levanta
Doces lembranças de uma caminhada
De muitas crianças na longa jornada.


CARTA PARA EDNA

Quando penso em escrever
Me aparece uma figura,
Tênue, constante
De sorriso aberto, de olhos molhados
De óculos e lentes.

Disse alguém que "boa professora não é a que sabe muito,
Mas aquela que consegue passar para o maior número de alunos
Os seus conhecimentos."
Eu digo que a melhor professora é aquela que consegue acender
No coração da aluna a luz do despertar
Para um sonho alimentar.
Boa professora é aquela que deixa na vida da aluna
Centelhas da fogueira que existe em si mesma
E que nunca vai se apagar.
         Um abraço, da Áurea



Pra que misturar alegria, ternura e dor?
                             
Difícil falar
Pra que Poemas?
Pra que chorar?
Pra que sorrir?
Pra que misturar alegria, ternura e dor?
Dentro de mim,
Um mar revolto, que vem da terra
Balançando, para na divisa da praia.
Quer continuar,
chegar onde estás,
ultrapassar limites
mostrar a cor da Água,
o som das ondas,
o calor da areia
que o sol aquece,
a miragem da espuma 
que desaparece
e que no meu  coração
com emoção eu quero guardar.
Nos poemas eu passo o limite da praia
Nas lágrimas  eu lavo os pecados,
No sorriso eu ilumino as lágrimas.
Misturar alegria, ternura e dor
É o segredo lindo de quem cultiva o amor.

Parabéns, Edna!

Acordei pensando em ti
E desejei -te um dia feliz.
Muitas alegrias e amor
Com fervor a Deus pedi

Entre as atividades do dia
Teu aniversário lembrava
E no meu coração cantava:
Parabéns Edna! E palmas batia.

Um presente de flores,
Um brinco, uma pulseira. 
Um perfume... uma floreira,
Lenços de muitas cores

Procurei muito em vão
Achei nestes versos o calor
De um presente de amor
Que brota no meu coração.


Quinta-feira, 1 de maio de 2014.
Cura para a Ingratidão.

Ingratidão? Ingratidão?
Pesa na vida, dói na alma, escurece a vista,
É muito pesado o fardo da ingratidão.
Não deixa andar, não deixa olhar, não deixa dormir.
Que se faz com carga tão cheia de mágoa e dor?
– Castigo, desprezo, maus tratos, vingança...
Mas não fica mais leve, aumenta o peso.
Dá mais amargura, porque não cura.
A ferida aberta sangra mais forte e parece a morte.
Existe um meio de se livrar de fardo tão forte,
Pois posso escolher um gesto mais nobre
Que vai lavando a ferida, aliviando a dor, diminuindo o peso,
Que não faz esquecer, mas que só quem escolhe este meio
são os inteligentes e sábios: o sábio entende,
O inteligente descobre que só ele pode largar o fardo no chão.
É inteligente e sábio aquele que consegue na vida,
Escolher pra curar as feridas
Usar para a ingratidão:
– O perdão!




2 comentários: 
1) Por Aquece a Escrita e NETIATIVO, em 2 de maio de 2014.
O texto CURA PARA A INGRATIDÃO é um texto poético. Pelas rimas podemos 'pinçar' do universo vocabular: para cicatrizar a "ferida" que "parece a morte" e "fardo tão forte" nada como "um gesto mais nobre”. Para curar a "ingratidão", é preciso deixar o "fardo no chão" e dar "perdão". O texto de Áurea parece dialogar com os temas recentes publicados no blog Netiativo, nos quais leio ideias interessantes para o processo de autocuidado. 
2) Por Maria das Graças, em 5 de maio de 2014. Muito bonito, nos faz pensar e mexe com os sentimentos. É poesia não narrativa, mas fala de seus sentimentos e fardos, por isso o foco em primeira pessoa.


Quem Conta um Conto

‒ Batuque, batucada
Foi o que escutei, na madrugada, diz Sofia.
 Batuque, batucada, cantoria
Sofia me contou na madrugada com euforia.
 ‒ Batuque, batucada, cantoria, palavrões,
Uma pessoa me contou da madrugada os empurrões.
‒ Algazarra, palavrões e até polícia, apareceram junto aos palavrões.
A notícia se espalhou e aos vizinhos alarmou.
Quem viu, quem escutou, quem presenciou
Os vizinhos sobressaltados,
Querem saber quem foi preso, amarrado, esfolado.
Sofia aparece, assustada com os alarmes.
Querem a história, como ela foi
Sofia nada viu. Sonhou e acordou,
Dormiu novamente e no outro dia
Seu sonho à vizinha contou.
Conferido o sonho que tragédia virou
Que de uma palavra a imaginação rolou,
Aos vizinhos acalmou
E descobriram neste encontro
QUE QUEM CONTA UM CONTO
AUMENTA UM PONTO.


HOJE

Não é dia de chuva, nem de sol
É só um dia nublado, dia de frio.
Debaixo das cobertas me aqueço e refaço no nada
Da  recente jornada.
Sem inspiração, sem ardor nem paixão
Aguardo paciente a recuperação.
Olho o céu cinzento, sem coloração e sem vida
E me vejo como este céu à espera da linda primavera.
Crédito da foto: MEROLA.
Primavera de luz, de cores, de calor.
De saúde, de paz, de alegria, entusiasmo e euforia.
Que me traga a inspiração
Que me empurre e ajude
A enfrentar as aventuras das tempestades,
O desconforto dos ventos
O barulho e a fumaça do vagão 
E cure as feridas do coração. 


Florianópolis, 23 de outubro de 2016.

Um dia diferente

Convite feito, decisão tomada
Uma pausa no caminho da longa estrada
Vento e frio sons e barracas
Jovens e idosos deixando suas marcas.
Descortinam-se intenções
Clareiam-se rumos nas confusões
Interessantes metas lindos motivos
Cabeças agindo e seres ativos
Trabalhos de amor apresentados
Reescrever os sonhos que estão apagados
Corações ansiosos almas em chama
Busca do tudo que o coração reclama
Cada momento a alma aflora
De surpresas e encantos que levam a outrora.
Procura de respostas para os mistérios
De vidas e vidas de homens sérios
Encerram-se lidas e solidariedade

Conforto e carinho na maior idade.


  1. O texto de Áurea é uma brilhante crônica intimista, Traz memórias em forma de impressões sobre uma profissão feminina : a de professora. Áurea dialoga com o conto São Genaro e a Professora “X” Maria – ficção sobre práticas escolares: escutar, ajudar, interferir, recordar, narrar, ensinar, interagir, refletir, crer, criar. Em seu texto Áurea encaminha os brasileiros 'para os canais competentes da dignidade humana e para todos os santos que sabem ensinar [...] amor'. 
  2. Linhares 27 de abril de 2014 12:12
    ...uma leitura que lembra Estórias de Cora Carolina e seus Poemas, recente aquisição que deslumbrou meu gosto pela leitura. Admiro grandemente o retorno de uma escritora singela mas de garra e responsabilidade no remodelar sutil da esperança e reviver a vida...
  3. Eliete 27 de abril de 2014 13:16
    Mãe, de muitas Marias estas feita. Marias que tecem, criam, sonham, constroem. Somente uma Maria reconhece outras Marias, de sua mesma linhagem e mesmos desafios. Educar é um grande desafio. Educar com amor e para o amor é educar para um mundo melhor e mais justo, pois nenhum amor pode se bastar em si. Amor que é amor, deseja ser derramado por aí. E tu derramas amor pelo mundo. Ao erguer teus olhos em lágrimas, para seguir a vida, verás tudo o que já criaste e seguirás criando. Te amo e admiro, minha mãe querida! Eliete.Eslavia Hugentobler27 de abril de 2014 18:01
  4. Tranquilo linguajar de sincera reflexão, que remete ao essencial atributo do ser HUMANO em sua trajetória pela vida, o AMOR.Tudo a ver com a Áurea.
  5. Hans Christian Wiedemann 3 de março de 2017 14:48
    Áurea, boa noite,
    os textos são lindos e gosto muito do fundo de moral vivencial embutido.
    Hans
  6. nidia maria de leon nobrega 20 de março de 2017 13:12
    Amei o texto de Aurea - e os outros dela também. Ela se dá o direito de expressão. Gosto dessa coragem de quem conquistou esse direito. Nidia
  7. Hans Christian Wiedemann 21 de março de 2017 03:29
    Áurea bom dia,

    Muito bela a vida,
    Quando sabemos vivê-la
    Que está dentro de nós,
    Para ser vivida.

    Hans
  8. Hans Christian Wiedemann 23 de março de 2017 15:32
    Áurea boa noite,


    Rimar é uma arte,
    Que trás o escrever a parte,
    Sendo como um encarte,
    De um jantar á la carte.

    Hans